quarta-feira, 1 de novembro de 2006

De olhos, jazz e cupidos

["Love looks not with the eyes but with the mind; And therefore is winged Cupid painted blind." William Shakesperare. Fonte: A Midsummer Night´s Dream, Ato 1, Cena 1, v. 240-241]


Quando ela entrou no pub, seus olhos iluminaram o salão esfumaçado como duas luas gêmeas. Luas azuis, como a que Billie Holliday imortalizou. Aliás, pensou ele, fosse possível, seria perfeito que a própria Billie estivesse ali, lamuriando amores impossíveis que, como os dados, rolavam às dúzias na atmosfera etílica dos pubs.

Há muito tempo ele gostava da expressão "olhos de mar", cunhada por Aldir Blanc, o mesmo que certa vez definira o mar como "o belo espelho da luz das estrelas". Agora, eram luas que continham doses quase insuportáveis de mar. Ocorrera-lhe, antes que ela chegasse ao balcão onde ele encostava-se, que Machado de Assis talvez tivesse sido o pioneiro nas ligações entre olhos e mares, creditando a Capitu "olhos de ressaca", que engole as areias da praia e deixa o Rio, como ela, furiosamente belo.

Ela sentou-se ao lado dele, pediu uma Guinness, e olharam-se longamente. Ele gostava muito de olhar para ela, como se seus olhos a pudessem tocar. Por um minuto, ou mais, ficaram em silêncio, olhares sólidos percorrendo seus corpos e o oceano de seus rostos. Mesmo um cupido cego que passasse, voando, por ali, certamente não teria dificuldades em acertar suas flechas onde fosse mais cabido.


Quando ele chegou em casa, sem saber em que pensar, colocou "Blue Moon" no toca-discos na voz de Billie Holliday, largou-se no sofá e resolveu não pensar. Sozinho na sala de estar, ele sentiu que alguém o olhava. Talvez um cupido - pensou - refazendo seu alvo.

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