terça-feira, 31 de outubro de 2006

Suave Veneno

Aproveitando o assunto de olhos, que tanto têm fatigado minhas retinas, deixo mais uma pérola do mestre Aldir Blanc.

Vivo encantado de amor
Inebriado em você
Suave veneno que pode curar
Ou matar, sem querer, por querer...

Essa paixão tão intensa
Também é meio doença,
Sinto no ar que respiro
Os suspiros de amor com você...

Suave veneno, você,
Que soube impregnar
Até a luz de outros olhos
Que busquei na noite
Pra me consolar

Se eu me curar deste amor
Não volto a te procurar
Minto que tudo mudou
Que eu pude me libertar

Apenas te peço um favor:
Não lance nos meus
Esses olhos de mar
Que eu desisto do adeus
Pra me envenenar

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Sobre países e amores

["Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love - they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock." Fonte: The Third Man, Inglaterra, 1946, roteiro de Graham Greene, dirigido por Carol Reed.]



Ele chegou em casa tarde, cansado de um exausto set de filmagens - era a ele, o diretor, a quem cabia a administração daquela enorme agremiação de egos inflados e vaidades. Entrou pela penumbra do apartamento, ligou a televisão para fazer companhia e entrou no chuveiro.

Uma voz familiar soava na televisão, um filme antigo. Deu tempo de voltar à sala, ainda pingando e enrolado em uma toalha, a tempo de ver Orson Welles dizer com sua bem-marcada voz, antes da interrupção comercial, que "na Itália, durante 30 anos sob os Borgias, houve guerras, terror, assassinatos, sangue. Eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, tiveram amor fraternal, 500 anos de democracia e paz. E o que produziram? O relógio cuco".

Em épocas de eleições mornas, sem cabeça para a política que lhe ceifava salários e, principalmente, oportunidades, ele notou - ridiculamente nu, enrolado numa toalha e pingando - como Welles poderia ter razão também em outros domínios. Algumas de suas relações recentes tinham sido como a Itália dos Bórgias: breves, mas carregadas de paixões e dramas, visitas inesperadas no meio da noite, beijos na nuca e tapas na cara. Outras, no entanto, eram "Suíças" no que tange à tranqüilidade, campos eventualmente floridos e cujas chuvas não comprometiam a alta serenidade média.

Não que ele embutisse conscientemente algum juízo de valores nessa divagação... mas talvez no fundo sentisse falta de algum movimento em sua vida, que, na retórica geográfica de Welles, seria um Paraguai, onde nada marcante e genuíno parece ter ocorrido desde a última guerra. E não que fosse um pedido por outra era Bórgia, aliás, eram Suíças que a vida ensaiava, vez ou outra, trazer-lhe, ainda que com pouco sucesso nas últimas vezes.

Renascimentos, monalisas e capelas cistinas, ao contrário do relógio-cuco, não soavam em sua sala. E quando soou, ele notou que o filme já havia acabado.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Saudades da Guanabara

Acho que só ele sabe o que eu, carioca bairrista e desterrado, sinto. E já escreveu, perfeitamente, o que é que estamos sentindo. "Saudades da Guanabara", pérola de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Moacyr Luz.


Eu sei
Que o meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão!

Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação...

...e então,
armei
piquenique na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade!

Reguei
O Salgueiro pra Muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar!

Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração

Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão...

...e então,
passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi Piedade

Plantei
Ramos de Laranjeiras, foi meu Juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar...

Brasil!
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar!

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Olhos de mar

[There are the elect to whom beautiful things mean only beauty. Fonte: Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray, Prefácio.]

Havia muito tempo que um par de olhos não lhe despertavam tanto o interesse. E justamente agora, olhos de mar, olhos blancquianos que haveriam de tirar-lhe um imerecido, até indesejado, sossego.

Talvez "interesse" fosse a palavra exatamente adequada, pois demonstrava timidamente um princípio de vontade de que as coisas fluissem, de que a vida e o acaso que não existe os presenteassem com a mágica do encontro, a mágica suprema que move a humanidade.

Era exatamente o que ele esperava, sempre esperara, ser movido de sua quietude inercial. Aliás, ocorreu a ele (que sem coragem de falar guardou para si a constatação), emoção e movimento eram palavras irmãs. O movimento do corpo condicionando o movimento da alma. O sexo e o esporte. E os vapores que dão liga à sucessão de fatos a que chamamos vida.

Olhos que fizeram parte de um passado que ele mal reconhecia como seu, que lembravam-lhe um olhar tão ausente, perdido no passado, tão carente de memorialismos e, ao mesmo tempo, forte, brilhante e fugidio - como a luz de uma vela no vento. E ainda que fosse celebrada apenas a possibilidade do encontro, que se não é tão prazerosa também não comporta decepções, já podia considerar um grande presente esse laço, esse nó atando duas pontas perdidas na vida. Coisas belas, enfim, significam apenas beleza.

domingo, 15 de outubro de 2006

Hamlet e a falta de horizontes

"Ser ou não ser - eis a questão" é sem dúvida nenhuma a mais repetida de todas as citações de Hamlet. No entanto, o início do segundo ato da peça de 1601 fazia, pelo menos para ele, mais sentido. Nesses versos, Rosencrantz diz a Hamlet que "a Dinamarca é muito limitada para a minha mente", ao que Hamlet responde que "poderia viver recluso numa casca de noz e se considerar rei do espaço infinito".


Naquele final de noite, ele foi até a varanda de seu apartamento em São Paulo, acendeu um cigarro e contemplou o pertubador silêncio da cidade estranhamente quieta. Ele sinceramente nunca havia pensado entre ganhar o mundo ou viver recluso numa casca de noz e se considerar o rei do espaço infinito... de fato, houve seu mestre durante a escola de cinema, que talvez - numa dimensão que ele ainda não sabia precisar - tenha influenciado determinantemente o resto de sua vida, num desapego cruel às coisas e às idéias, numa beira do niilismo e na certeza de que damos à vida o sentido que melhor nos aprouver, na falta de um sentido intrínseco.

Ele podia aspirar às telas do mundo inteiro, com seus filmes carregados de personalidade e de histórias não tão doces quanto ele gostaria, menos por incompetência do que por desilusão - justamente a arte da ilusão sendo moldada pela desilusão. Podia também aspirar a tudo o mais que a vida pudesse proporcionar a pessoas como ele, saudáveis, se possível jovens, razoavelmente bem-nascidas e ilustradas e escoladas num jogo-de-cintura existencial típico do terceiro mundo.

Podia, também, contentar-se com a sobrevivência no mundo no qual nascera, com garantias do gênero casamento, emprego e nação. Se isso não bastasse num primeiro olhar, afobado como são os primeiros olhares, podia, como um bônus de consolação, dedicar-se a compreender a vida e o ser humano e conquistar o espaço infinito e morrer, de velhice ou cirrose, a que vier primeiro, entre amigos e livros e - com um pouco de sorte - um grande amor.

Queria apenas poder escolher serenamente entre um destino ou outro, sem que a recessão, a inércia, o comodismo ou as desilusões o empurrassem para o segundo.

Ele olhava para o céu perguntando, mas talvez seu D´us não soubesse respondê-lo naquele momento ou, talvez ainda, não quisesse que Seus planos fossem revelados nesse momento. A cidade aos poucos retomava sua estranha sinfonia de barulhos. Então, ele arremessou com um peteleco - como de hábito - o toco do cigarro, e bebeu o resto quase inexistente de whisky no copo. Já estava alvorecendo, e ele precisava ao menos tentar dormir.