sexta-feira, 2 de junho de 2006

T.

Foi depois de muitos anos que ele a viu de novo. E ela estava linda sentada de costas para a porta - por onde ele acabara de entrar - de um restaurante japonês perdido em São Paulo. Ali, alheia ainda à sua presença, ela conversava com suas amigas ignorando completamente as tantas águas e as tantas milhas de estrada que os havia separado, distanciado.

Ele havia mudado bastante, como denotavam expletivamente seus cabelos rebeldes e compridos e sua barba. Talvez fosse ainda a mesma criança que ele sempre fora, encantada com o mundo que passa por seus olhos, espantado e admirado com o fato das pessoas não notarem a beleza de tudo. Ela parecia a mesma, mas ele sabia - haviam mantido certo contato - das sinuosidades das estradas por que ela havia passado, das amarguras, dos sonhos.

Ela estava em dúvida. Sempre convivera com amontoados de dúvidas, estava acostumada com isso, mas elas vinham crescendo em tamanho e intensidade. Não sabia o que queria fazer de sua vida, talvez não quisesse fazer nada mesmo: a inércia é menos desconfortável do que o automatismo.

Faltava talvez um grande objetivo, uma grande viagem, uma grande paixão (alguma que ela não quisesse esquecer depois que passasse, como costumam passar as grandes paixões), algo que lhe desse razão para continuar andando. E todos os problemas que via no mundo e na vida não eram mais do que os problemas que todos vêem - não era ela a primeira a sentir isso nem seria a última. Ele mesmo já sentira isso, vivia sentido isso: quando ela abria os sentimentos para ele, freqüentemente ele sentia como se ela falasse dele mesmo, não dela. Assim era com todas as pessoas, quando se fala de angústias inerentes à própria condição humana.

Havia duas opções: ele podia ignorar o passado, como assaz ele convém ser ignorado, esquecido, e lutar para conhecer e conquistar aquela nova pessoa que a vida, de presente, punha novamente em seu caminho. Por outro lado, podia manter vivas suas memórias, traçar o caminho - o fio de vida - que liga essa mulher do presente àquela que ele havia conhecido tantos anos antes.


Depois de um quase hesitar parado à porta do restaurante, escolheu a segunda opção, e sentou-se aliviado à mesa, disposto a empreender os esforços necesários para terminar aquilo que fora começado tanto tempo antes.

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