segunda-feira, 5 de junho de 2006

Nove nove meia

Distavam uns seiscentos metros um do outro, os dois pontos de ônibus. Para ele, significavam dois ou três minutos a mais ou a menos na companhia dela, que tanto o aprazia, no trajeto que faziam todos os dias na volta da faculdade. Descer no primeiro ponto significava uma caminhada mais amena para casa, com alguns quarteirões e uma ladeira a menos - depois de uma jornada de um dia inteiro em Niterói, significava chegar em casa uns dez minutos mais cedo e menos cansado. Descer no segundo ponto era passar mais uns ligeiros minutos ao lado dela e - com um pouco de sorte - alongar o papo enquanto esperavam, no ponto, o pai que vinha buscá-la. No entanto, se era por um lado a jornada mais longa para casa, era também a chance de passar em frente a um bar para, ao som dos Beatles, tomar um whisky sozinho no balcão e chegar em casa mais relaxado.

Era um bar rústico que existia na Pinheiro Guimarães, freqüentado principalmente por motoqueiros. Nem sempre estava aberto quando ele passava em frente, beirando às onze da noite, mas quando estava, dava para ouvir há dois quarteirões os acordes da guitarra de George Harrison, convidando para a inevitável pausa do whisky e da reflexão.

Inclusive, havia um turbilhão de sentimentos sobre os quais refletir, especialmente revoltos pelo chacoalhar do ônibus e da presença dela ao seu lado. A começar por que ele, àquela época, era completa e irremediavelmente apaixonado por ela, e as paixões, em si, já são achacapantes sem que haja a necessidade de complicadores adicionais.

E para complicar - complicação pouca é bobagem - ela tinha um namorado e, sobretudo, era fiel (pelo menos até onde ele sabia) e, não bastasse, blasée. O passo inevitável e conseguinte é o não, a que se segue sempre um afastamento cicatrizante de autopreservação e, quando a vida permite e brinda-nos com essa possibilidade, uma reaproximação no futuro, tempo em que as coisas talvez possam ser diferentes.

Na primeira chance que tiveram, ainda que não a tenham exercido - ele, com certeza, por medo; ela, quiçá por falta de vontade - a simbologia se fez presente: passaram pelos mesmos pontos de ônibus: ele, com o passado ardendo na boca; ela, alheia, consumida nos próprios pensamentos sobre a vida e o mundo.

E dessa vez, não havia um whisky a caminho de casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário