segunda-feira, 19 de junho de 2006

Duas Breves Cartas

Como um náufrago, sem saber se serão lidas as mensagens nas garrafas com que ele semeia o mar, mas ainda assim sem deixar de lançá-las, declaro aqui o meu carinho, o meu amor e o meu respeito (além de um pouco de pesar pela atual conjuntura) por estas duas mulheres, destinatárias das cartas, personagens lindas e importantes de alguns capítulos na minha vida.

1-

P.,

Éramos duas crianças. O Rio de Janeiro, o meu Rio de Janeiro, um dia, um outro dia, já foi longe demais. Era quando doía fundo quando o Chico Buarque cantava "sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / sei também o quanto é preciso, ó Pá, / navegar, navegar".

Hoje é outro tipo de distância que dói fundo, e não é a distância dos amantes que se foram. É a distância do amigo impossível não por mágoa, mas por descaso; não por desamor, mas por conveniência.

Um dia, um outro dia passado há pouco, constatei o pouco que restou. Do jardim onde nos beijamos pela primeira vez, então, foi quase nada que restou: apenas a certeza de que tudo corre bem com você, cada vez mais linda e mais talentosa e mais segura e mais mulher. (Dessas certezas que me dão uma felicidade tamanha, alheia e egoísta.)

Os presentes que a vida nos dá - e insiste em nos dar -, somos tolos em recusá-los sistematicamente. Um dia, um outro dia, ela se cansa e vai embora, há uma certa necessidade de desapego para que possamos continuar caminhando.

E com meu pouco desapego, que ando treinando insistentemente, eu prometo tentar fazer com que esse bilhete seja a minha derradeira palavra neste assunto.

sinceramente,

r.l.



2-

K!,

"Esse dezesseis no meu e-mail é porque mês que vem eu faço dezesseis anos."

Talvez, com um pouco de poesia e de amnésia, essa declaração sirva como marco inicial de uma história de carinho, amizade, confidências e desencontros. Há de se notar que o carinho e o desencontro podem vir juntos, como têm vindo nos últimos tempos.

É muito importante que não deixemos o etéreo permear-se pelo bom-dia acanhado, pelo desconforto, pela surpresa ou pela saída muda e francesa. É muito importante que saibamos o quanto são fulcrais na nossa vida as pessoas que nos conheceram quando éramos crianças. É muito importante que não deixemos perder o fio que une num único laço todas as pontas das nossas vidas, o fio machadiano, o fio fundamental.

Se fôssemos contar o que passamos nesse tempo todo de silêncio, haveriam de ser incontáveis horas de bar, que sempre foram tão escassas que me dá uma angústia ao pensar na terrível matemática que faz contar as horas para trás, afastando caminhos paralelos e tornando-os opostos.

É, e sempre é, possível mudar, recuperar o laço perdido e continuar a escrever linhas que um dia, por falta de tinta ou por uma inevitabilidade qualquer, deixamos de escrever. Só precisamos olhar .

A amizade é um exercício de olhar.

muito carinho,

r.l.

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