quarta-feira, 21 de junho de 2006

Nítido e Obscuro

Mais uma pérola do mestre dos mestres Aldir Blanc.

A porcelana e o alabastro
Na pele que eu vou beijar
O escuro atrás do astro
Na boca que me afogar
Os veios que há no mármore
Nos seios de Conceição
E desafeto e mais paixão
E porque sim e porque não
Porque em você
O que me prende vive livre
Como tudo que há no espelho
Existe mas não tive
O bambual de ouro no dorso do tigre
O farol de Alexandria varando a solidão
Tu me incendeia e o ciúme entra na veia
A paixão ricocheteia
Sobe inté o coração - e é bom!
Pouco existente feito as perna da sereia
O cavalo de São Jorge, pisando a lua cheia
Igual a chuva que há no fundo da baleia:
É tão pouca e formoseia o aguarão do mar
O amor vareia: o primeiro vira areia
O segundo sacaneia
Mas o próximo é ilusão - que bom!
Eu quando choro do olho sai meteoro e fogo
De cada poro um vulcão
É dor capaz de tombar a Via-Láctea no mar
Mas cabe dentro do olho
De um grilo no manguezal
Eu quando rio faz frio de calafrio
As moça tem arrupio e terção
É alegria capaz de acovardar lobisomem
E quando mais se espera dela
É aí que ela some
Eu jogo truco, dou troco
Sou truculento e turrão
Bato muito firme
Danço jongo, candongueiro,
Eu mato a cobra
E depois exibo o pau pra nós dois:
Tu se afeiçoa, faz carinho e me enleia
Eu gosto mas me aperreia
O depender de mulher
É sempre nítido e obscuro o que se quer!

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Duas Breves Cartas

Como um náufrago, sem saber se serão lidas as mensagens nas garrafas com que ele semeia o mar, mas ainda assim sem deixar de lançá-las, declaro aqui o meu carinho, o meu amor e o meu respeito (além de um pouco de pesar pela atual conjuntura) por estas duas mulheres, destinatárias das cartas, personagens lindas e importantes de alguns capítulos na minha vida.

1-

P.,

Éramos duas crianças. O Rio de Janeiro, o meu Rio de Janeiro, um dia, um outro dia, já foi longe demais. Era quando doía fundo quando o Chico Buarque cantava "sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / sei também o quanto é preciso, ó Pá, / navegar, navegar".

Hoje é outro tipo de distância que dói fundo, e não é a distância dos amantes que se foram. É a distância do amigo impossível não por mágoa, mas por descaso; não por desamor, mas por conveniência.

Um dia, um outro dia passado há pouco, constatei o pouco que restou. Do jardim onde nos beijamos pela primeira vez, então, foi quase nada que restou: apenas a certeza de que tudo corre bem com você, cada vez mais linda e mais talentosa e mais segura e mais mulher. (Dessas certezas que me dão uma felicidade tamanha, alheia e egoísta.)

Os presentes que a vida nos dá - e insiste em nos dar -, somos tolos em recusá-los sistematicamente. Um dia, um outro dia, ela se cansa e vai embora, há uma certa necessidade de desapego para que possamos continuar caminhando.

E com meu pouco desapego, que ando treinando insistentemente, eu prometo tentar fazer com que esse bilhete seja a minha derradeira palavra neste assunto.

sinceramente,

r.l.



2-

K!,

"Esse dezesseis no meu e-mail é porque mês que vem eu faço dezesseis anos."

Talvez, com um pouco de poesia e de amnésia, essa declaração sirva como marco inicial de uma história de carinho, amizade, confidências e desencontros. Há de se notar que o carinho e o desencontro podem vir juntos, como têm vindo nos últimos tempos.

É muito importante que não deixemos o etéreo permear-se pelo bom-dia acanhado, pelo desconforto, pela surpresa ou pela saída muda e francesa. É muito importante que saibamos o quanto são fulcrais na nossa vida as pessoas que nos conheceram quando éramos crianças. É muito importante que não deixemos perder o fio que une num único laço todas as pontas das nossas vidas, o fio machadiano, o fio fundamental.

Se fôssemos contar o que passamos nesse tempo todo de silêncio, haveriam de ser incontáveis horas de bar, que sempre foram tão escassas que me dá uma angústia ao pensar na terrível matemática que faz contar as horas para trás, afastando caminhos paralelos e tornando-os opostos.

É, e sempre é, possível mudar, recuperar o laço perdido e continuar a escrever linhas que um dia, por falta de tinta ou por uma inevitabilidade qualquer, deixamos de escrever. Só precisamos olhar .

A amizade é um exercício de olhar.

muito carinho,

r.l.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Nove nove meia

Distavam uns seiscentos metros um do outro, os dois pontos de ônibus. Para ele, significavam dois ou três minutos a mais ou a menos na companhia dela, que tanto o aprazia, no trajeto que faziam todos os dias na volta da faculdade. Descer no primeiro ponto significava uma caminhada mais amena para casa, com alguns quarteirões e uma ladeira a menos - depois de uma jornada de um dia inteiro em Niterói, significava chegar em casa uns dez minutos mais cedo e menos cansado. Descer no segundo ponto era passar mais uns ligeiros minutos ao lado dela e - com um pouco de sorte - alongar o papo enquanto esperavam, no ponto, o pai que vinha buscá-la. No entanto, se era por um lado a jornada mais longa para casa, era também a chance de passar em frente a um bar para, ao som dos Beatles, tomar um whisky sozinho no balcão e chegar em casa mais relaxado.

Era um bar rústico que existia na Pinheiro Guimarães, freqüentado principalmente por motoqueiros. Nem sempre estava aberto quando ele passava em frente, beirando às onze da noite, mas quando estava, dava para ouvir há dois quarteirões os acordes da guitarra de George Harrison, convidando para a inevitável pausa do whisky e da reflexão.

Inclusive, havia um turbilhão de sentimentos sobre os quais refletir, especialmente revoltos pelo chacoalhar do ônibus e da presença dela ao seu lado. A começar por que ele, àquela época, era completa e irremediavelmente apaixonado por ela, e as paixões, em si, já são achacapantes sem que haja a necessidade de complicadores adicionais.

E para complicar - complicação pouca é bobagem - ela tinha um namorado e, sobretudo, era fiel (pelo menos até onde ele sabia) e, não bastasse, blasée. O passo inevitável e conseguinte é o não, a que se segue sempre um afastamento cicatrizante de autopreservação e, quando a vida permite e brinda-nos com essa possibilidade, uma reaproximação no futuro, tempo em que as coisas talvez possam ser diferentes.

Na primeira chance que tiveram, ainda que não a tenham exercido - ele, com certeza, por medo; ela, quiçá por falta de vontade - a simbologia se fez presente: passaram pelos mesmos pontos de ônibus: ele, com o passado ardendo na boca; ela, alheia, consumida nos próprios pensamentos sobre a vida e o mundo.

E dessa vez, não havia um whisky a caminho de casa.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

T.

Foi depois de muitos anos que ele a viu de novo. E ela estava linda sentada de costas para a porta - por onde ele acabara de entrar - de um restaurante japonês perdido em São Paulo. Ali, alheia ainda à sua presença, ela conversava com suas amigas ignorando completamente as tantas águas e as tantas milhas de estrada que os havia separado, distanciado.

Ele havia mudado bastante, como denotavam expletivamente seus cabelos rebeldes e compridos e sua barba. Talvez fosse ainda a mesma criança que ele sempre fora, encantada com o mundo que passa por seus olhos, espantado e admirado com o fato das pessoas não notarem a beleza de tudo. Ela parecia a mesma, mas ele sabia - haviam mantido certo contato - das sinuosidades das estradas por que ela havia passado, das amarguras, dos sonhos.

Ela estava em dúvida. Sempre convivera com amontoados de dúvidas, estava acostumada com isso, mas elas vinham crescendo em tamanho e intensidade. Não sabia o que queria fazer de sua vida, talvez não quisesse fazer nada mesmo: a inércia é menos desconfortável do que o automatismo.

Faltava talvez um grande objetivo, uma grande viagem, uma grande paixão (alguma que ela não quisesse esquecer depois que passasse, como costumam passar as grandes paixões), algo que lhe desse razão para continuar andando. E todos os problemas que via no mundo e na vida não eram mais do que os problemas que todos vêem - não era ela a primeira a sentir isso nem seria a última. Ele mesmo já sentira isso, vivia sentido isso: quando ela abria os sentimentos para ele, freqüentemente ele sentia como se ela falasse dele mesmo, não dela. Assim era com todas as pessoas, quando se fala de angústias inerentes à própria condição humana.

Havia duas opções: ele podia ignorar o passado, como assaz ele convém ser ignorado, esquecido, e lutar para conhecer e conquistar aquela nova pessoa que a vida, de presente, punha novamente em seu caminho. Por outro lado, podia manter vivas suas memórias, traçar o caminho - o fio de vida - que liga essa mulher do presente àquela que ele havia conhecido tantos anos antes.


Depois de um quase hesitar parado à porta do restaurante, escolheu a segunda opção, e sentou-se aliviado à mesa, disposto a empreender os esforços necesários para terminar aquilo que fora começado tanto tempo antes.