sábado, 20 de maio de 2006

Reimpressões

"O menino é o pai do homem." (Fernando Sabino)


Ele nunca havia pensado que talvez fossem demais sinceros os versos de Chico Buarque que dizem ser "desconcertante rever um grande amor".

Novas emoções são sempre benvindas, como as paixões, às quais ele pediu a vida inteira que o arrebatassem e, quando o fizeram, ele lutava infantilmente contra elas. Não andava escrevendo coisas com sentido completo. Tampouco desabafava. Curtia apenas apenas suas reimpressões, ou reminescências de reimpressões, extraídas de baixo de muitos metros de fantasmas, emoções e soluços amarelos que o soterraram nas últimas semanas.

Primeiro foi no Rio, uma despedida à altura da cidade em que ele nasceu. A mais linda cidade do mundo, que ele abandonava por hora para ganhar o mundo e o que lhe coubesse nesse latifúndio. Um encontro mágico de dois corpos, duas almas e dois pares de olhos claros vendo, da melhor maneira possível, o nascer do sol no Arpoador. Talvez o último que ele visse.

Horas depois, São Paulo. Ansiava por encontrar-se com ela a quem não não via por longos anos, a quem já dedicara crônicas e insônias, e lhe restaram somente interrogações - umas poucas e conclusivas interrogações - depois de um lacônico encontro num restaurante japonês escondido na zona norte da maior cidade do país.

Foi a vez de Campinas, cidade na estrada rumo à terra onde ele cresceu. Passou, a caminho de lá, pelas Campinas de seus tantos sonhos, de suas memórias - os nomes das ruas evocavam-lhe histórias: Barão de Itapura, a rodoviária onde tanto descera para encontrar, uma vez uma grande paixão, tantas vezes seu grande amor.

De volta ao interior, de sua infância, as ruas lhe trouxeram, duas vezes, a visão deste grande amor do passado. Como Chico Buarque previra, foi desconcertante, engraçado. Ele não havia mais para dizer, exceto que estava confuso por não se ver reconhecido na lembrança de um amor que, talvez em parte, não tenha esvanecido totalmente.

O homem, que nascera no Arpoador, era filho do menino que ambas essas moças conheceram. E só agora ele se dava conta disso, como se víssemos de relance na rua algum amigo perdido no tempo e soubéssemos depois que era apenas o filho de quem conhecêramos no passado, já morto há muito tempo.

O menino, pai do homem, é morto. Vive somente na lembrança dos que o conheceram - e dos que o amaram - e, da forma mais bonita possível, impresso indelevelmente na personalidade do homem, que carrega a memória de seus amores e o sorriso congelado no tempo.