domingo, 15 de janeiro de 2006

A Patada Final

Há muito ele sonhava fazer um filme com aquela atriz: ela era uma estrela ansiosa por começar a brilhar para fora de seu mundinho - ele era alguém em quem ela via um poder de transformar as coisas, a essência dinâmica da transformação e da criação.

Ele era de fato um diretor de cinema e um poço de contradições. Seu primeiro filme maduro chegou a ser acusado de inaugurar uma nova escola cinematográfica que marcaria para sempre a história da sétima arte; além disso, atraiu para ele a atenção de dezenas de estrelas - ela inclusive - dispostas a trabalhar com ele.

Quando encontraram-se, inevitavelmente apaixonaram-se. Uma paixão sólida e difícil. Ela era casada, ele inconstante. Ela era o próprio pôr-do-sol em beleza e pontualidade - ele, uma queda livre e vertiginosa.

Ele era um homem, um mosaico humano. Era um personagem e era um ator. Um gênio intuitivo e uma fraude. Um adivinho e um encantador. Um escroque e um homem de sacrossanta generosidade. Um enganador e um amante da humanidade. Manipulava os homens. Um ególatra: exalava uma segurança que não tinha.

Ela era uma puta e era uma menina. Uma ilhota de charme e sol nascente. Era de todos os homens e de algumas mulheres e era só sua. Ela era estrela de cinema e era dona de casa. Precisava do porto seguro que eram suas convicções mas precisava aventurar-se, precisava viver. Era tudo o que queria ser, era esforçada para ser o que era. Era sonhadora e era cotidiana. Uma criança: pensava que o mundo estava contra ela.

Amaram-se louca e brevemente. Restaram-lhes, da devastação de um amor assim, três filhos, três frutos. E, como todo dia, que se encerra com um irremediável pôr-do-sol, esse amor também fechou seu ciclo (como fecham um dia todos os amores), ainda que se tenham deixado portas abertas por onde passasse, quase eternamente, a memória fluida lentamente desgastada dos dias que viveram juntos.





Antes que me acusem de escrever sempre os mesmos blogs, de sempre falar em terceira pessoa falando de mim mesmo - ainda que removam, pairando no ar, as pesadas acusações - quero esclarecer uma coisa: "ele", nesse conto, ao contrário do que pensaram alguns leitores desavisados, é Roberto Rosselini. "Ela" é Ingrid Bergman. E, entre os frutos desse tórrido casamento, a atriz Isabella Rosselini. Os dados e as descrições psicológicas foram tirados de quatro livros sobre o casal, que devorei recentemente. Aqui estão sem alterações de conteúdo.

Ainda, somente a título de curiosidade, o nome completo de Isabella Rosselini é Isabella Fiorella Electra Giovanna Rossellini.

5 comentários:

  1. Eu sei que você não gosta de Clarice Lispector, mas esse seu post me lembrou uma frase dela:

    "Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco."

    Beijo

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  2. New blog: www.silenciosaimperfeicao.blogspot.com

    bjos,
    Isa

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  3. É sir Leal, depois de muito esforço, as findaram-se as filmagens, e pior, terei saudades desse tempo...

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  4. Rafa, nunca gostei de set... mas esse foi muito, muito bom. Apesar do cansaço... foi uma oportunidade única de estar ao lado de pessoas valiosa.

    Beijos, nos falamos em breve.
    Clara.

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  5. Onde estão as atualizações desse blog?
    Tanta dedicação cinematográfica está secando a veia literária?

    Saudade. De você e seus escritos.
    beijo

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