quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Meu Caro Amigo

Amo-lhe muito.

É chegada uma hora de transformação, em que devemos pesar as palavras ditas porque até pausas impensadas varrem como furacões. É chegada a hora de distinguir dos porcos os legítimos apanhadores das pérolas que atiramos inconseqüentemente.

É cada vez mais preciso que cheguemos a um acordo: não temos sido um com o outro os homens que propagamos - com as palavras, sempre irresponsáveis porque palavras - ser. Temos falado como homens e agido como meninos, talvez uns mais do que os outros, ainda que todos nós.

Um dia ainda olharemos para este passado e veremos o quão humanos - e cegos e tolos porque humanos - fomos. É igualmente importante que saibamos o quão infantis temos sido sem tentar amadurecer antes da hora - ou pior, presumirmo-nos maduros.

Faz parte da suprema lei da natureza, dentro da ordem natural das coisas que pais morram antes dos filhos. Creio estar chegando a hora de um velório, de alguém que amamos muito. Fernando Sabino dizia que o menino é pai do homem. E é preciso que o menino morra para que o homem possa, na sua condição de filho, ocupar o lugar que lhe é de direito nesse mundo.

Você me entende quando quer. Sabe que não são tão belo quanto acha minha avó, nem tão rico quanto acham alguns outros amigos, nem tão bom de cama quanto acham algumas mulheres (que nunca se deitaram comigo para saber), nem tão mau-caráter quanto você chegou a achar, nem tão inteligente quanto eu cheguei a achar.

Então, é preciso que repartamos o pão da vida enquanto ele ainda é presente - porque fugaz - e comamos juntos suas migalhas, colocando na toalha xadrez que nos serve todas nossas diferenças. E o resto, que venha se tiver que vir, ou não venha.

Antes que chegue a hora do verdadeiro tira-teima. Os que forem amigos, se salvam. Os que não forem, se queimam.



Sobretudo, amo-lhe muito.

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