terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Cena de um filme a ser escrito

Chão de um apartamento qualquer. Coisas em caixas por todos os lados. Pouco depois de um reveillon.

- Você é meu primeiro homem desde que eu me separei do Alarico.
- E como foi?
- Estranho. Estranhamente bom.

Ele acende um cigarro.

- Eu sou sua primeira mulher desse ano?
- Você quer que eu fale a verdade ou que eu minta? se vc disser sem convicção que eu fale a verdade, eu vou mentir.
- Eu quero que você fale a verdade.
- Não.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Bianca

Aos que estão mal-acostumados com minhas escritas ou que chegaram até aqui desavisados, avisa-se de antemão que este conto não contém sexo, amores nem demais violências, boas ou más. Mas contém uma coleção de brevidades que marcaram minha vida.

Uma prova de vestibular é um dos locais da mitologia adolescente menos provável de se conhecer pessoas novas. Naquele princípio de tarde de verão carioca, ao invés da praia que chamava (os outros, porque sempre odiei praia), eu me dirigia ao Colégio Pedro II, em São Cristóvão, para me submeter a mais uma prova.

Assim como eu ia, também iam outras pessoas, saindo de suas tocas em Copacabana e dirigindo-se à avenida que nomeava o bairro, tomar um ônibus que nos deixasse, a todos, no local da prova.

Sentar à cadeira de prova, fingir que relaxa, olhar à volta, reconhecer na sala um amigo de infância, acenar disfarçando a angústia, continuar o périplo do olhar, achar bonitinha a garota da primeira fila, saia muito curta para uma prova de vestibular, não?, mas também com um calor desses, e finalmente encontrar uma nuca estranhamente familiar na carteira da frente.

Uma nuca loura que pedia que eu puxasse algum assunto no primeiro momento oportuno, e quando ela virou-se para trás, devo ter feito algum comentário idiota que a memória graciosamente me furtou de lembrar, mas o contato estava feito. De fato, ela tinha vindo comigo no ônibus. Era aquela loirinha de olhos azulíssimos, com cara de paulista e aparelho nos dentes, bolsinha vermelha com estojo, óculos e todas as coisas que adolescentes paulistas - sem juízo de valores - carregam em suas bolsinhas vermelhas.

Bianca era de Campinas, prestava vestibular para o mesmo curso que eu. Estava hospedada em Copacabana, no Astoria da Paula Freitas. Estabelecido o contato, foi pouco até irmos e voltarmos todos os dias juntos, durante os cinco dias de prova. Depois disso, sem iludir o leitor, vimos-nos apenas uma vez, quando eu estava de passagem em Campinas tomamos uma cerveja num Giovanetti que nem existe mais, soube depois. Mas mantivemos, no limite do que possa significar isso, um contato.

Como já foi dito, não é uma história de amor. Nada indica, também, que venha a ser algum dia - o que me obrigaria a uma imprópria revisão neste conto. Por algum motivo insondável, pessoas que passam por nossas vidas marcam mais do que ficam, intenções (tensões?) mais do que paixão, impressões mais do que fatos.

Acredito ser, até o presente momento, o ocorrido.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Viviane

Foi numa aula que Viviane tomou ciência da minha existência. Eu, sempre sentado ao fundo da sala, disse algo - como sempre fazia - ao professor, e ela virou-se para trás para saber quem era o dono da voz grossa que interrompia a aula com um comentário metido a engraçado.

Era uma mulher muito bonita, pouco mais velha do que eu, que cursava algumas matérias na escola de Cinema. Sempre perguntava, ao final das aulas, quando eu a chamaria para tomar uma cerveja na praça vizinha à faculdade, repleta de bares e que enchia de estudantes no final da tarde buscando na cerveja alívio para o intenso calor do verão carioca e para o igualmente intenso desânimo que ter aulas nas férias - graças às sucessivas greves - causava.

Viviane era uma mulher especialíssima: vegetariana radical, versada nas artes ocultas do paganismo celta, dona de uma risada inconfundível e deliciosa, excelente cozinheira.

Depois de incontáveis horas e cervejas no bar, fui deixá-la em casa. Ela - como todos nós estudantes cariocas exilados em Niterói, cidade do interior do estado do Rio situada do outro lado da baía da Guanabara - morava próximo à praça e à faculdade, e como bom moço de inclinações cavalheirescas, fui deixá-la no portão, onde todo o clima e a tensão que havíamos construído no bar floresceu.

Por algum instinto maluco que até hoje não consigo explicar, não a beijei naquela noite quente por absoluta falta de um drops que me tirasse da boca o gosto de cervejas e cigarros. Sem entender nada, ela foi dormir, acordada no dia seguinte por um telefonema meu, convidando-a para o aniversário de uma amiga comum.

Incerta ainda se eu era gay - fato comum na escola de cinema - ela aceitou o convite. Na festa, debruçados sobre uma janela, nos beijamos sabor drops. Halls preto.

Entre os apaixonados meses de namoro que se seguiram e idas e vindas de inconciliação, ficamos juntos por quase um ano. Um ano feliz, eu diria. E, tendo chegado a nossa quarta-feira de cinzas, soubemos civilizadamente a hora certa de parar, preservando uma grande amizade - e um grande carinho - que nos une.

Amizade sabor halls preto.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Uma reflexão deslocada

["People are always blaming their circumstances for what they are. I don't believe in circumstances. The people who get on in this world are the people who get up and look for the circumstances they want, and, if they can't find them, make them." Fonte: "Mrs. Warren's Profession", Ato II, de Sir George Bernard Shaw]



Ela já o esperava na mesa do bar, belíssima como sempre, quando ele chegou alguns minutos atrasado. Ele a cumprimentou com um beijo tímido na face, sentou-se e, sem dizer nada, esperou pelo whisky (que o garçom automaticamente traria) que lhe faz fluir as palavras.

Apesar de ser uma idéia deveras atraente, a felicidade dele depender inteiramente de outra pessoa era praticamente inviável, contrariando tudo os conceitos do grande amor que, com seus filmes, ele alardeava.

Quando era jovem, muito antes de suas histórias pueris aspirarem às telas de cinema, apaixonava-se com incrível facilidade, alvo fácil para setas mitológicas. Talvez até tenha conhecido, nessa época, o que é o grande amor, o amor incondicional e imorredouro, como conhecem as crianças e os loucos. No entanto, as crianças são educadas, os loucos aprisionados, e esse conhecimento e essa certeza adormecem em algum recôndito perdido de nossas memórias.

Ele começou a falar, ela ouvia quieta, como era de seu feitio. Não que eles estivessem irremediavelmente apaixonados um pelo outro, era exatamente essa a questão: eles não estavam! E que isto não deveria impedir - ou condicionar - que eles tentassem viver uma história juntos, como se o amor fosse uma construção, bem como a felicidade. Afinal, e se um cupido estivesse esperando, na falta das imagens, pelos sons a indicar a alcova para onde deveriam ser direcionadas suas setas?

Na falta das condições que eram vistas no cinema, era fundamental achar alernativas, criar as próprias oportunidades. Os tempos mudavam cada vez mais rápido e eles eram pessoas presas entre duas gerações. Eram invisíveis.


"Foi um tiro de canhão, ou é meu coração explodindo?", pergunta Ilsa (Bergman) a Rick (Bogart) em Casablanca, palco de conflitos na Segunda Guerra Mundial. E hoje, distantes seis décadas, não há mais bares em meio às guerras, só o silêncio.


Ele rompeu o silêncio para pedir mais um insolúvel whisky.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Casting

1.
B., desenvolta, sorriso cativante. Seus olhos ora focam uma realidade extremamente presente, ora estão ausentes. Engenheira de um complexo sistema de amortecimento e estabilização por compensação emocional, do qual é criadora e criatura, superfície e símbolo. Um olhar mais atento revela ideais nobres e um bocado de laissez-faire. Racionalista, tanto quanto uma equação de efemérides astrológicas e suas relações com o futuro da humanidade, exata e inexata no mesmo paradoxo.

Talvez o diretor queira sugerir à atriz que performará B. uma certa dose de lirismo e dúvidas, a fim de aprofundar a empatia com a audiência.


2.
C., personagem difícil, de características primárias aparentemente planas, recato e fantasia. É preciso uma análise mais minuciosa para revelar a magia desta personagem, que transparecem timidamente por olhos azuis como um grito. Trata-se da personificação de uma aquarela de Blake. Uma queda, segundo consta, um tanto acentuada por elfos e congêneres.

O diretor deve fazer com que a atriz atinja o nível preciso desta personagem, sob a pena da inverossimilhança. Recomenda-se cautela, de ambos.


3.
P., uma das personagens mais ecléticas do teatro universal. Carismática e contundente, versátil e com um intenso apreço por convicções. Um olhar mais atento sugere uma inesperada porém enorme doçura. Ideóloga eventual, senão de uma geração, de um grupo próximo que sua altivez encanta sem eclipsar. Notável, como é comum nestes casos, a atração que sente por espécimes, digamos, pouco afeitos ao convencionalismo higiênico.

Convém ao diretor instilar convicção, reiterar a doçura às vezes pouco aparente e, principalmente, uma encantadora dose de puerícia suburbana em contraste com a aparente maturidade urbana.




Pirandellos à parte, peça em três atos, três personagens (à procura de um autor?), para três atrizes adultas.
Currículos com foto na portaria deste jornal.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

De olhos, jazz e cupidos

["Love looks not with the eyes but with the mind; And therefore is winged Cupid painted blind." William Shakesperare. Fonte: A Midsummer Night´s Dream, Ato 1, Cena 1, v. 240-241]


Quando ela entrou no pub, seus olhos iluminaram o salão esfumaçado como duas luas gêmeas. Luas azuis, como a que Billie Holliday imortalizou. Aliás, pensou ele, fosse possível, seria perfeito que a própria Billie estivesse ali, lamuriando amores impossíveis que, como os dados, rolavam às dúzias na atmosfera etílica dos pubs.

Há muito tempo ele gostava da expressão "olhos de mar", cunhada por Aldir Blanc, o mesmo que certa vez definira o mar como "o belo espelho da luz das estrelas". Agora, eram luas que continham doses quase insuportáveis de mar. Ocorrera-lhe, antes que ela chegasse ao balcão onde ele encostava-se, que Machado de Assis talvez tivesse sido o pioneiro nas ligações entre olhos e mares, creditando a Capitu "olhos de ressaca", que engole as areias da praia e deixa o Rio, como ela, furiosamente belo.

Ela sentou-se ao lado dele, pediu uma Guinness, e olharam-se longamente. Ele gostava muito de olhar para ela, como se seus olhos a pudessem tocar. Por um minuto, ou mais, ficaram em silêncio, olhares sólidos percorrendo seus corpos e o oceano de seus rostos. Mesmo um cupido cego que passasse, voando, por ali, certamente não teria dificuldades em acertar suas flechas onde fosse mais cabido.


Quando ele chegou em casa, sem saber em que pensar, colocou "Blue Moon" no toca-discos na voz de Billie Holliday, largou-se no sofá e resolveu não pensar. Sozinho na sala de estar, ele sentiu que alguém o olhava. Talvez um cupido - pensou - refazendo seu alvo.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Suave Veneno

Aproveitando o assunto de olhos, que tanto têm fatigado minhas retinas, deixo mais uma pérola do mestre Aldir Blanc.

Vivo encantado de amor
Inebriado em você
Suave veneno que pode curar
Ou matar, sem querer, por querer...

Essa paixão tão intensa
Também é meio doença,
Sinto no ar que respiro
Os suspiros de amor com você...

Suave veneno, você,
Que soube impregnar
Até a luz de outros olhos
Que busquei na noite
Pra me consolar

Se eu me curar deste amor
Não volto a te procurar
Minto que tudo mudou
Que eu pude me libertar

Apenas te peço um favor:
Não lance nos meus
Esses olhos de mar
Que eu desisto do adeus
Pra me envenenar

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Sobre países e amores

["Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love - they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock." Fonte: The Third Man, Inglaterra, 1946, roteiro de Graham Greene, dirigido por Carol Reed.]



Ele chegou em casa tarde, cansado de um exausto set de filmagens - era a ele, o diretor, a quem cabia a administração daquela enorme agremiação de egos inflados e vaidades. Entrou pela penumbra do apartamento, ligou a televisão para fazer companhia e entrou no chuveiro.

Uma voz familiar soava na televisão, um filme antigo. Deu tempo de voltar à sala, ainda pingando e enrolado em uma toalha, a tempo de ver Orson Welles dizer com sua bem-marcada voz, antes da interrupção comercial, que "na Itália, durante 30 anos sob os Borgias, houve guerras, terror, assassinatos, sangue. Eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, tiveram amor fraternal, 500 anos de democracia e paz. E o que produziram? O relógio cuco".

Em épocas de eleições mornas, sem cabeça para a política que lhe ceifava salários e, principalmente, oportunidades, ele notou - ridiculamente nu, enrolado numa toalha e pingando - como Welles poderia ter razão também em outros domínios. Algumas de suas relações recentes tinham sido como a Itália dos Bórgias: breves, mas carregadas de paixões e dramas, visitas inesperadas no meio da noite, beijos na nuca e tapas na cara. Outras, no entanto, eram "Suíças" no que tange à tranqüilidade, campos eventualmente floridos e cujas chuvas não comprometiam a alta serenidade média.

Não que ele embutisse conscientemente algum juízo de valores nessa divagação... mas talvez no fundo sentisse falta de algum movimento em sua vida, que, na retórica geográfica de Welles, seria um Paraguai, onde nada marcante e genuíno parece ter ocorrido desde a última guerra. E não que fosse um pedido por outra era Bórgia, aliás, eram Suíças que a vida ensaiava, vez ou outra, trazer-lhe, ainda que com pouco sucesso nas últimas vezes.

Renascimentos, monalisas e capelas cistinas, ao contrário do relógio-cuco, não soavam em sua sala. E quando soou, ele notou que o filme já havia acabado.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Saudades da Guanabara

Acho que só ele sabe o que eu, carioca bairrista e desterrado, sinto. E já escreveu, perfeitamente, o que é que estamos sentindo. "Saudades da Guanabara", pérola de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Moacyr Luz.


Eu sei
Que o meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão!

Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação...

...e então,
armei
piquenique na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade!

Reguei
O Salgueiro pra Muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar!

Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração

Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão...

...e então,
passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi Piedade

Plantei
Ramos de Laranjeiras, foi meu Juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar...

Brasil!
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar!

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Olhos de mar

[There are the elect to whom beautiful things mean only beauty. Fonte: Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray, Prefácio.]

Havia muito tempo que um par de olhos não lhe despertavam tanto o interesse. E justamente agora, olhos de mar, olhos blancquianos que haveriam de tirar-lhe um imerecido, até indesejado, sossego.

Talvez "interesse" fosse a palavra exatamente adequada, pois demonstrava timidamente um princípio de vontade de que as coisas fluissem, de que a vida e o acaso que não existe os presenteassem com a mágica do encontro, a mágica suprema que move a humanidade.

Era exatamente o que ele esperava, sempre esperara, ser movido de sua quietude inercial. Aliás, ocorreu a ele (que sem coragem de falar guardou para si a constatação), emoção e movimento eram palavras irmãs. O movimento do corpo condicionando o movimento da alma. O sexo e o esporte. E os vapores que dão liga à sucessão de fatos a que chamamos vida.

Olhos que fizeram parte de um passado que ele mal reconhecia como seu, que lembravam-lhe um olhar tão ausente, perdido no passado, tão carente de memorialismos e, ao mesmo tempo, forte, brilhante e fugidio - como a luz de uma vela no vento. E ainda que fosse celebrada apenas a possibilidade do encontro, que se não é tão prazerosa também não comporta decepções, já podia considerar um grande presente esse laço, esse nó atando duas pontas perdidas na vida. Coisas belas, enfim, significam apenas beleza.

domingo, 15 de outubro de 2006

Hamlet e a falta de horizontes

"Ser ou não ser - eis a questão" é sem dúvida nenhuma a mais repetida de todas as citações de Hamlet. No entanto, o início do segundo ato da peça de 1601 fazia, pelo menos para ele, mais sentido. Nesses versos, Rosencrantz diz a Hamlet que "a Dinamarca é muito limitada para a minha mente", ao que Hamlet responde que "poderia viver recluso numa casca de noz e se considerar rei do espaço infinito".


Naquele final de noite, ele foi até a varanda de seu apartamento em São Paulo, acendeu um cigarro e contemplou o pertubador silêncio da cidade estranhamente quieta. Ele sinceramente nunca havia pensado entre ganhar o mundo ou viver recluso numa casca de noz e se considerar o rei do espaço infinito... de fato, houve seu mestre durante a escola de cinema, que talvez - numa dimensão que ele ainda não sabia precisar - tenha influenciado determinantemente o resto de sua vida, num desapego cruel às coisas e às idéias, numa beira do niilismo e na certeza de que damos à vida o sentido que melhor nos aprouver, na falta de um sentido intrínseco.

Ele podia aspirar às telas do mundo inteiro, com seus filmes carregados de personalidade e de histórias não tão doces quanto ele gostaria, menos por incompetência do que por desilusão - justamente a arte da ilusão sendo moldada pela desilusão. Podia também aspirar a tudo o mais que a vida pudesse proporcionar a pessoas como ele, saudáveis, se possível jovens, razoavelmente bem-nascidas e ilustradas e escoladas num jogo-de-cintura existencial típico do terceiro mundo.

Podia, também, contentar-se com a sobrevivência no mundo no qual nascera, com garantias do gênero casamento, emprego e nação. Se isso não bastasse num primeiro olhar, afobado como são os primeiros olhares, podia, como um bônus de consolação, dedicar-se a compreender a vida e o ser humano e conquistar o espaço infinito e morrer, de velhice ou cirrose, a que vier primeiro, entre amigos e livros e - com um pouco de sorte - um grande amor.

Queria apenas poder escolher serenamente entre um destino ou outro, sem que a recessão, a inércia, o comodismo ou as desilusões o empurrassem para o segundo.

Ele olhava para o céu perguntando, mas talvez seu D´us não soubesse respondê-lo naquele momento ou, talvez ainda, não quisesse que Seus planos fossem revelados nesse momento. A cidade aos poucos retomava sua estranha sinfonia de barulhos. Então, ele arremessou com um peteleco - como de hábito - o toco do cigarro, e bebeu o resto quase inexistente de whisky no copo. Já estava alvorecendo, e ele precisava ao menos tentar dormir.

sábado, 30 de setembro de 2006

O amor segundo o rugby

Para ele, o amor era como um jogo de rugby: prazeroso e divertido quando bem jogado, violento quando desleal e, principalmente, arrebatador para quem se entrega.

Sempre tivera uma paixão irracional, forte como fosse genética, pela Inglaterra. Cruzou-lhe o caminho o rugby, esporte bretão pai do futebol. Explicava a todos, pacientemente, que nada a ver tinha com o futebol americano, um esporte de bárbaros. O rugby era o esporte dos cavalheiros por excelência.

Depois de exausto o corpo, após os treinos, era a vez de exaurir a alma, invariavelmente com um copo de Shandy numa mão e, na outra, um fumo pouco condizente com sua condição de atleta. E é sempre no bar que as coisas acontecem - desta vez o destino lhe escolhera um pub irlandês como o palco em que sua vida começaria a mudar. Bem escolado na "síndrome dos pubs", ele tinha gravadas cicatrizes que não lhe permitiam esquecer da máxima de Sir George Bernard Shaw, que não se misturam os humores (tampouco os amores) do fígado e do coração.

Eram três as belas garotas sentadas a um canto do pub. A inércia da vida que o impedia de retribuir os olhares insistentes foi vencida como um scrum, movidos por seus dois companheiros de time, que, por menos experientes - no jogo e na vida - também eram mais inconseqüentes.

- "Eu te vi no jogo de hoje à tarde." - A iniciativa partiu dela. - "Belíssimo try o seu."
- "Obrigado, você joga também?"
- "Jogo sim, mas estou começando. Foi uma bela vitória", disse ela, sem saber que, então, havia sido duas.

E a relação dos dois percorreu os caminhos de uma relação rápida como a bola descendo a linha no ataque. E, diferentemente do rugby, ao chegar ao fim, não tinha para onde voltar. E se a bola chega ao ponta ainda longe da linha do in-goal, procura-se outra forma de avanço, seja voltando e começando o ataque de novo, seja insistindo na quebra da linha pela força ou pela tática.

Ele não sabia precisar se o amor tinha um in-goal ou algo que o valha, como se o jogo - como é o esquecido espírito esportivo - fosse mais importante do que os pontos ou o resultado final.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Retomada

Havia várias coisas na vida dele a serem retomadas.

Havia amores abandonados pela estrada que, depois de se ter chegado ao destino, talvez fosse valente voltar e retomá-los, talvez apenas para que tivessem a chance de terminar por si próprios.

Havia também questões mais amplas, de fé e de povo, responsabilidades e teologias que talvez fossem muita chuva para sua pouca planta.

Havia sobretudo uma vida inteira interrompida, vagando no no limbo que há entre ontem e amanhã. Mas essa, talvez ele não soubesse retomar.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Nítido e Obscuro

Mais uma pérola do mestre dos mestres Aldir Blanc.

A porcelana e o alabastro
Na pele que eu vou beijar
O escuro atrás do astro
Na boca que me afogar
Os veios que há no mármore
Nos seios de Conceição
E desafeto e mais paixão
E porque sim e porque não
Porque em você
O que me prende vive livre
Como tudo que há no espelho
Existe mas não tive
O bambual de ouro no dorso do tigre
O farol de Alexandria varando a solidão
Tu me incendeia e o ciúme entra na veia
A paixão ricocheteia
Sobe inté o coração - e é bom!
Pouco existente feito as perna da sereia
O cavalo de São Jorge, pisando a lua cheia
Igual a chuva que há no fundo da baleia:
É tão pouca e formoseia o aguarão do mar
O amor vareia: o primeiro vira areia
O segundo sacaneia
Mas o próximo é ilusão - que bom!
Eu quando choro do olho sai meteoro e fogo
De cada poro um vulcão
É dor capaz de tombar a Via-Láctea no mar
Mas cabe dentro do olho
De um grilo no manguezal
Eu quando rio faz frio de calafrio
As moça tem arrupio e terção
É alegria capaz de acovardar lobisomem
E quando mais se espera dela
É aí que ela some
Eu jogo truco, dou troco
Sou truculento e turrão
Bato muito firme
Danço jongo, candongueiro,
Eu mato a cobra
E depois exibo o pau pra nós dois:
Tu se afeiçoa, faz carinho e me enleia
Eu gosto mas me aperreia
O depender de mulher
É sempre nítido e obscuro o que se quer!

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Duas Breves Cartas

Como um náufrago, sem saber se serão lidas as mensagens nas garrafas com que ele semeia o mar, mas ainda assim sem deixar de lançá-las, declaro aqui o meu carinho, o meu amor e o meu respeito (além de um pouco de pesar pela atual conjuntura) por estas duas mulheres, destinatárias das cartas, personagens lindas e importantes de alguns capítulos na minha vida.

1-

P.,

Éramos duas crianças. O Rio de Janeiro, o meu Rio de Janeiro, um dia, um outro dia, já foi longe demais. Era quando doía fundo quando o Chico Buarque cantava "sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / sei também o quanto é preciso, ó Pá, / navegar, navegar".

Hoje é outro tipo de distância que dói fundo, e não é a distância dos amantes que se foram. É a distância do amigo impossível não por mágoa, mas por descaso; não por desamor, mas por conveniência.

Um dia, um outro dia passado há pouco, constatei o pouco que restou. Do jardim onde nos beijamos pela primeira vez, então, foi quase nada que restou: apenas a certeza de que tudo corre bem com você, cada vez mais linda e mais talentosa e mais segura e mais mulher. (Dessas certezas que me dão uma felicidade tamanha, alheia e egoísta.)

Os presentes que a vida nos dá - e insiste em nos dar -, somos tolos em recusá-los sistematicamente. Um dia, um outro dia, ela se cansa e vai embora, há uma certa necessidade de desapego para que possamos continuar caminhando.

E com meu pouco desapego, que ando treinando insistentemente, eu prometo tentar fazer com que esse bilhete seja a minha derradeira palavra neste assunto.

sinceramente,

r.l.



2-

K!,

"Esse dezesseis no meu e-mail é porque mês que vem eu faço dezesseis anos."

Talvez, com um pouco de poesia e de amnésia, essa declaração sirva como marco inicial de uma história de carinho, amizade, confidências e desencontros. Há de se notar que o carinho e o desencontro podem vir juntos, como têm vindo nos últimos tempos.

É muito importante que não deixemos o etéreo permear-se pelo bom-dia acanhado, pelo desconforto, pela surpresa ou pela saída muda e francesa. É muito importante que saibamos o quanto são fulcrais na nossa vida as pessoas que nos conheceram quando éramos crianças. É muito importante que não deixemos perder o fio que une num único laço todas as pontas das nossas vidas, o fio machadiano, o fio fundamental.

Se fôssemos contar o que passamos nesse tempo todo de silêncio, haveriam de ser incontáveis horas de bar, que sempre foram tão escassas que me dá uma angústia ao pensar na terrível matemática que faz contar as horas para trás, afastando caminhos paralelos e tornando-os opostos.

É, e sempre é, possível mudar, recuperar o laço perdido e continuar a escrever linhas que um dia, por falta de tinta ou por uma inevitabilidade qualquer, deixamos de escrever. Só precisamos olhar .

A amizade é um exercício de olhar.

muito carinho,

r.l.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Nove nove meia

Distavam uns seiscentos metros um do outro, os dois pontos de ônibus. Para ele, significavam dois ou três minutos a mais ou a menos na companhia dela, que tanto o aprazia, no trajeto que faziam todos os dias na volta da faculdade. Descer no primeiro ponto significava uma caminhada mais amena para casa, com alguns quarteirões e uma ladeira a menos - depois de uma jornada de um dia inteiro em Niterói, significava chegar em casa uns dez minutos mais cedo e menos cansado. Descer no segundo ponto era passar mais uns ligeiros minutos ao lado dela e - com um pouco de sorte - alongar o papo enquanto esperavam, no ponto, o pai que vinha buscá-la. No entanto, se era por um lado a jornada mais longa para casa, era também a chance de passar em frente a um bar para, ao som dos Beatles, tomar um whisky sozinho no balcão e chegar em casa mais relaxado.

Era um bar rústico que existia na Pinheiro Guimarães, freqüentado principalmente por motoqueiros. Nem sempre estava aberto quando ele passava em frente, beirando às onze da noite, mas quando estava, dava para ouvir há dois quarteirões os acordes da guitarra de George Harrison, convidando para a inevitável pausa do whisky e da reflexão.

Inclusive, havia um turbilhão de sentimentos sobre os quais refletir, especialmente revoltos pelo chacoalhar do ônibus e da presença dela ao seu lado. A começar por que ele, àquela época, era completa e irremediavelmente apaixonado por ela, e as paixões, em si, já são achacapantes sem que haja a necessidade de complicadores adicionais.

E para complicar - complicação pouca é bobagem - ela tinha um namorado e, sobretudo, era fiel (pelo menos até onde ele sabia) e, não bastasse, blasée. O passo inevitável e conseguinte é o não, a que se segue sempre um afastamento cicatrizante de autopreservação e, quando a vida permite e brinda-nos com essa possibilidade, uma reaproximação no futuro, tempo em que as coisas talvez possam ser diferentes.

Na primeira chance que tiveram, ainda que não a tenham exercido - ele, com certeza, por medo; ela, quiçá por falta de vontade - a simbologia se fez presente: passaram pelos mesmos pontos de ônibus: ele, com o passado ardendo na boca; ela, alheia, consumida nos próprios pensamentos sobre a vida e o mundo.

E dessa vez, não havia um whisky a caminho de casa.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

T.

Foi depois de muitos anos que ele a viu de novo. E ela estava linda sentada de costas para a porta - por onde ele acabara de entrar - de um restaurante japonês perdido em São Paulo. Ali, alheia ainda à sua presença, ela conversava com suas amigas ignorando completamente as tantas águas e as tantas milhas de estrada que os havia separado, distanciado.

Ele havia mudado bastante, como denotavam expletivamente seus cabelos rebeldes e compridos e sua barba. Talvez fosse ainda a mesma criança que ele sempre fora, encantada com o mundo que passa por seus olhos, espantado e admirado com o fato das pessoas não notarem a beleza de tudo. Ela parecia a mesma, mas ele sabia - haviam mantido certo contato - das sinuosidades das estradas por que ela havia passado, das amarguras, dos sonhos.

Ela estava em dúvida. Sempre convivera com amontoados de dúvidas, estava acostumada com isso, mas elas vinham crescendo em tamanho e intensidade. Não sabia o que queria fazer de sua vida, talvez não quisesse fazer nada mesmo: a inércia é menos desconfortável do que o automatismo.

Faltava talvez um grande objetivo, uma grande viagem, uma grande paixão (alguma que ela não quisesse esquecer depois que passasse, como costumam passar as grandes paixões), algo que lhe desse razão para continuar andando. E todos os problemas que via no mundo e na vida não eram mais do que os problemas que todos vêem - não era ela a primeira a sentir isso nem seria a última. Ele mesmo já sentira isso, vivia sentido isso: quando ela abria os sentimentos para ele, freqüentemente ele sentia como se ela falasse dele mesmo, não dela. Assim era com todas as pessoas, quando se fala de angústias inerentes à própria condição humana.

Havia duas opções: ele podia ignorar o passado, como assaz ele convém ser ignorado, esquecido, e lutar para conhecer e conquistar aquela nova pessoa que a vida, de presente, punha novamente em seu caminho. Por outro lado, podia manter vivas suas memórias, traçar o caminho - o fio de vida - que liga essa mulher do presente àquela que ele havia conhecido tantos anos antes.


Depois de um quase hesitar parado à porta do restaurante, escolheu a segunda opção, e sentou-se aliviado à mesa, disposto a empreender os esforços necesários para terminar aquilo que fora começado tanto tempo antes.

sábado, 20 de maio de 2006

Reimpressões

"O menino é o pai do homem." (Fernando Sabino)


Ele nunca havia pensado que talvez fossem demais sinceros os versos de Chico Buarque que dizem ser "desconcertante rever um grande amor".

Novas emoções são sempre benvindas, como as paixões, às quais ele pediu a vida inteira que o arrebatassem e, quando o fizeram, ele lutava infantilmente contra elas. Não andava escrevendo coisas com sentido completo. Tampouco desabafava. Curtia apenas apenas suas reimpressões, ou reminescências de reimpressões, extraídas de baixo de muitos metros de fantasmas, emoções e soluços amarelos que o soterraram nas últimas semanas.

Primeiro foi no Rio, uma despedida à altura da cidade em que ele nasceu. A mais linda cidade do mundo, que ele abandonava por hora para ganhar o mundo e o que lhe coubesse nesse latifúndio. Um encontro mágico de dois corpos, duas almas e dois pares de olhos claros vendo, da melhor maneira possível, o nascer do sol no Arpoador. Talvez o último que ele visse.

Horas depois, São Paulo. Ansiava por encontrar-se com ela a quem não não via por longos anos, a quem já dedicara crônicas e insônias, e lhe restaram somente interrogações - umas poucas e conclusivas interrogações - depois de um lacônico encontro num restaurante japonês escondido na zona norte da maior cidade do país.

Foi a vez de Campinas, cidade na estrada rumo à terra onde ele cresceu. Passou, a caminho de lá, pelas Campinas de seus tantos sonhos, de suas memórias - os nomes das ruas evocavam-lhe histórias: Barão de Itapura, a rodoviária onde tanto descera para encontrar, uma vez uma grande paixão, tantas vezes seu grande amor.

De volta ao interior, de sua infância, as ruas lhe trouxeram, duas vezes, a visão deste grande amor do passado. Como Chico Buarque previra, foi desconcertante, engraçado. Ele não havia mais para dizer, exceto que estava confuso por não se ver reconhecido na lembrança de um amor que, talvez em parte, não tenha esvanecido totalmente.

O homem, que nascera no Arpoador, era filho do menino que ambas essas moças conheceram. E só agora ele se dava conta disso, como se víssemos de relance na rua algum amigo perdido no tempo e soubéssemos depois que era apenas o filho de quem conhecêramos no passado, já morto há muito tempo.

O menino, pai do homem, é morto. Vive somente na lembrança dos que o conheceram - e dos que o amaram - e, da forma mais bonita possível, impresso indelevelmente na personalidade do homem, que carrega a memória de seus amores e o sorriso congelado no tempo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Autópsia

Hoje, a palavra jamais
se apossou do meu dentro
como um seqüestrador
congelando um momento
como um torturador
saqueando
o templo
do meu corpo
como um profanador
violando o sossego
onde já estive morto...

Meu amor foi em vão
ressuscitado
só pra testemunhar
que não resta mais nada
e é nessa paisagem desolada
e vazia,
dentro dessa agonia,
sem raiz, orvalho e ramo
que eu grito: eu te amo
mesmo que não me pertenças mais,
mesmo que eu, no abandono,
também já não me pertença mais.

Com a frieza das facas semelhantes
dos legistas a amantes, bons profissionais,
foi gravada em meu peito a palavra jamais.
Mesmo sendo relativamente moço
e achando o poço onde ela é pedra
profundo demais...




Mais uma vez ele, o grande mestre (ele que não me ouça o chamando assim) Aldir Blanc. Considerações sobre o último infarto.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Reimpressões

Tenho visto filmes que não deveria ver.
Tenho deixado de viver histórias que talvez eu devesse viver, a despeito do que elas pudessem trazer.
Tenho observado o futuro através de um caleidoscópio.
What stands in the front?





All's well that ends well.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Um último post

Não se espantem se esse for o último post.


Na verdade, é bem provável que não seja. É bem capaz de, depois que a chuva passar aqui dentro, eu continue escrevendo como sempre escrevi. É complicado esse negócio de escrever: escreve-se só por falta de opção mesmo, acaba sendo inevitável.

Preferia estar escrevendo um roteiro, fazendo um filme, fazendo algo por mim ou por alguém que eu ame ou que eu não ame. Escrever é destrutivo e catártico como uma noite mergulhada nos alucinógenos que nunca experimentarei. É chato como uma noite passada com um vendedor de seguros. E, no final das contas, inútil como uma noite. Qualquer noite.

Tenho me emocionado com muita dificuldade. Tenho um saco de pedregulhos atado à alma. Tenho tido pouca ou nenhuma vontade de escrever. Tenho também a convicção de que fases alternam-se, ainda que agravem-se a cada ciclo. Tenho estado cansado.

Muito cansado.

domingo, 15 de janeiro de 2006

A Patada Final

Há muito ele sonhava fazer um filme com aquela atriz: ela era uma estrela ansiosa por começar a brilhar para fora de seu mundinho - ele era alguém em quem ela via um poder de transformar as coisas, a essência dinâmica da transformação e da criação.

Ele era de fato um diretor de cinema e um poço de contradições. Seu primeiro filme maduro chegou a ser acusado de inaugurar uma nova escola cinematográfica que marcaria para sempre a história da sétima arte; além disso, atraiu para ele a atenção de dezenas de estrelas - ela inclusive - dispostas a trabalhar com ele.

Quando encontraram-se, inevitavelmente apaixonaram-se. Uma paixão sólida e difícil. Ela era casada, ele inconstante. Ela era o próprio pôr-do-sol em beleza e pontualidade - ele, uma queda livre e vertiginosa.

Ele era um homem, um mosaico humano. Era um personagem e era um ator. Um gênio intuitivo e uma fraude. Um adivinho e um encantador. Um escroque e um homem de sacrossanta generosidade. Um enganador e um amante da humanidade. Manipulava os homens. Um ególatra: exalava uma segurança que não tinha.

Ela era uma puta e era uma menina. Uma ilhota de charme e sol nascente. Era de todos os homens e de algumas mulheres e era só sua. Ela era estrela de cinema e era dona de casa. Precisava do porto seguro que eram suas convicções mas precisava aventurar-se, precisava viver. Era tudo o que queria ser, era esforçada para ser o que era. Era sonhadora e era cotidiana. Uma criança: pensava que o mundo estava contra ela.

Amaram-se louca e brevemente. Restaram-lhes, da devastação de um amor assim, três filhos, três frutos. E, como todo dia, que se encerra com um irremediável pôr-do-sol, esse amor também fechou seu ciclo (como fecham um dia todos os amores), ainda que se tenham deixado portas abertas por onde passasse, quase eternamente, a memória fluida lentamente desgastada dos dias que viveram juntos.





Antes que me acusem de escrever sempre os mesmos blogs, de sempre falar em terceira pessoa falando de mim mesmo - ainda que removam, pairando no ar, as pesadas acusações - quero esclarecer uma coisa: "ele", nesse conto, ao contrário do que pensaram alguns leitores desavisados, é Roberto Rosselini. "Ela" é Ingrid Bergman. E, entre os frutos desse tórrido casamento, a atriz Isabella Rosselini. Os dados e as descrições psicológicas foram tirados de quatro livros sobre o casal, que devorei recentemente. Aqui estão sem alterações de conteúdo.

Ainda, somente a título de curiosidade, o nome completo de Isabella Rosselini é Isabella Fiorella Electra Giovanna Rossellini.

domingo, 8 de janeiro de 2006

Dois bombons e uma rosa

Depois de uma longa noite de conversa que nubla as vistas e que revolve o lodo do fundo, por mais sedimentado que esteja, apenas o mestre supremo Aldir pode aclarar as idéias...

Dois bombons e uma rosa
Aldir Blanc

Faço votos de feliz casamento,
parabéns pra você,
prevaleceu seu bom-senso.
Reconheço que era chato
ser a outra eternamente
com encontros marcados
por coisas do tipo “eu subo na frente”.
Finalmente teu garoto
vai ter um pai de primeira,
você mais segurança
e um pingüim na geladeira.
Na cabeceira um relógio,
a hora mais luminosa,
churrascaria aos domingos:
dois bombons e uma rosa.
Apenas quero fazer
a necessária ressalva:
jamais comente o passado,
lembre o conselho de Dalva.
Não há xampu, não há creme
que apague ou que desmarque
da tua pele o meu beijo
fedendo a conhaque.




Por isso, entre outras coisas, que Aldir é um gênio. E ele que não leia tantos seguidos elogios. Talvez ficasse até bravo comigo. Mas o que sinto por ele e pela obra dele transcende a admiração: trata-se da mais absoluta reverência.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Minha Cara Amiga

Aconteceu que fomos pegos. Várias e seguidas vezes pelo mesmo trem.

Primeiro, quando fomos surpreendidos pelo súbito, inesperada e inequivocamente ligados. Depois, inevitavel e imperativamente separados. Por fim, jogados a este frágil mar a que chamamos de vida, vieram os sentimentos inexplicáveis - como costumam ser os sentimentos - e, porque não?, controversos.

E de que vale chorar o que passou, se tanto há a caminhar?

Admiro intensamente sua força. Aliás, tanto há a admirar em você, que não me restam dúvidas de que, a despeito do que você sente, podemos ser grandes amigos. Gosto imensamente de você e disso não depende você gostar ou não de mim, de querer ou não conviver comigo. Essa é uma decisão inteiramente sua, e, em que pese, afirmo publicamente que gosto de você intransitivamente.

Acredito que não somos nós os humanos o ápice da Criação, somos tão somente parte dela. E observando - ofício primordial do artista a observação - à nossa volta, notamos facilmente que a vida é uma sucessão cíclica de acontecimentos. E que, por mais longos que sejam os invernos, eles nunca deixaram de ser sucedidos por primaveras.

É preciso conservar o exemplo dos ursos, que protegem-se durante o inverno de modo que estejam saudáveis e dispostos a colher os frutos da primavera que, invariavelmente, se avizinha.


Por fim, peço ao Criador que nos permita partilhar, todos juntos, os folguedos de tantas primaveras que virão, ainda que pontuada por tantos invernos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Perder um amigo

Do mestre supremo de todos mestres, Aldir Blanc.
Essa é de um disco raríssimo dele com o Maurício Tapajós...

E que ninguém me acuse de ser dramático! Entenda quem quiser, ou puder.


Perder um amigo,
morrer pelos bares,
pifar em New York,
penar em Pilares...
Perder um amigo:
errar a tacada,
sentir comichão
na perna amputada.
Perder um amigo,
mudar pra bem longe,
levar vida afora
o tombo do bonde.

Perde um amigo
é a última gota
se o cara duvida
que a vida é marota.
Perder um amigo,
perder o sentido,
perder a visão,
as mãos, os ouvidos...

Perder um amigo:
perder o encontro
marcado e marcar-se
com a perda do espelho
nos olhos do amigo
aonde melhor
conheci minha face.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Meu Caro Amigo

Amo-lhe muito.

É chegada uma hora de transformação, em que devemos pesar as palavras ditas porque até pausas impensadas varrem como furacões. É chegada a hora de distinguir dos porcos os legítimos apanhadores das pérolas que atiramos inconseqüentemente.

É cada vez mais preciso que cheguemos a um acordo: não temos sido um com o outro os homens que propagamos - com as palavras, sempre irresponsáveis porque palavras - ser. Temos falado como homens e agido como meninos, talvez uns mais do que os outros, ainda que todos nós.

Um dia ainda olharemos para este passado e veremos o quão humanos - e cegos e tolos porque humanos - fomos. É igualmente importante que saibamos o quão infantis temos sido sem tentar amadurecer antes da hora - ou pior, presumirmo-nos maduros.

Faz parte da suprema lei da natureza, dentro da ordem natural das coisas que pais morram antes dos filhos. Creio estar chegando a hora de um velório, de alguém que amamos muito. Fernando Sabino dizia que o menino é pai do homem. E é preciso que o menino morra para que o homem possa, na sua condição de filho, ocupar o lugar que lhe é de direito nesse mundo.

Você me entende quando quer. Sabe que não são tão belo quanto acha minha avó, nem tão rico quanto acham alguns outros amigos, nem tão bom de cama quanto acham algumas mulheres (que nunca se deitaram comigo para saber), nem tão mau-caráter quanto você chegou a achar, nem tão inteligente quanto eu cheguei a achar.

Então, é preciso que repartamos o pão da vida enquanto ele ainda é presente - porque fugaz - e comamos juntos suas migalhas, colocando na toalha xadrez que nos serve todas nossas diferenças. E o resto, que venha se tiver que vir, ou não venha.

Antes que chegue a hora do verdadeiro tira-teima. Os que forem amigos, se salvam. Os que não forem, se queimam.



Sobretudo, amo-lhe muito.