sábado, 10 de dezembro de 2005

Espelho

Naquele dia, ele era só lembranças. Ele estava apaixonado por ela: lembranças em excesso eram mais dos inequívocos sintomas da paixão. Lembrou-lhe o momento em que se beijaram, o momento em que se perceberam, o momento em que brigaram - sentiu-se tolo, sentiu-se forte, sentiu-se feliz.

Reciprocidade era uma coisa incomum, ainda que menos no cinema do que na vida. Ele achava muito injusto, coisa de roteirista sádico, que se criassem tantos problemas antes que os protagonistas da história ficassem juntos... alguns ele criara por ingenuidade; outros, ela criara por medo.

Para ele era claro que ficariam juntos, apesar dos outros (talvez pensasse assim para não sofrer por antecipação). Em sua vida, bem como em seu próximo filme, cujas filmagens se avizinhavam, ele aprendia que Sartre era um cara que devia ser levado a sério... "O inferno são os outros". Exatamente isso.

Ele estava soterrado pelas lembranças dos momentos mais recentes: tinha a certeza de que o homem que saíra da casa dela era mais maduro do que o homem que ali houvera entrado. Beijaram-se com tanto desejo como poucas vezes ele havia visto, mesmo nos filmes mais inspirados.

Ele parou o carro na garagem, desligou o motor e ficou pensando. Saiu do carro lentamente, chamou o elevador. Entre as dúvidas e as vontades de que essa fatídica noite tivesse infinitas continuações, olhando pelo espelho do elevador, percebeu uma purpurina, brilhante e vermelha, que sua bochecha tinha caprichosamente roubado da blusa dela.

Um comentário:

  1. Passo a conhecer agora ,então.
    Mas naum como vc.. eu comento.

    gostei muito,viu?

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