sábado, 3 de dezembro de 2005

De atores e personagens

[O homem que volta pela Porta na Parede jamais será o mesmo homem que saiu por ela. Será mais sábio e menos dogmático; mais feliz, contudo menos satisfeito consigo mesmo; mais humilde em reconhecer sua ignorância, mas ainda assim mais habilitado a compreender o relacionamento entre as palavras e as coisas, a raciocinar sistematicamente sobre o Mistério insondável que ele tenta, ainda que em vão, compreender. Fonte: As Portas da Percepção, Aldous Huxley]



Ainda na Faculdade de Cinema, ele ouvira dizer que, depois de interpretar o Stanley Kowalski, em "Um bonde chamado Desejo", Marlon Brando nunca mais foi o mesmo. Carregou para sempre, em seus outros personagens e em sua vida, esse forte personagem - autobiográfico? - de Tenessee Williams.

Anos depois, ele teve a certeza de que quem escreveu isso - o jornalista René Jordan, se não falhava sua boa memória - tinha toda a razão em acreditar que isso era perfeitamente possível.

Depois de anos interpretando o cansativo porém eficiente personagem de um ator-diretor de cinema, seguro e sedutor, arrogante, verborrágico, culto, ele havia cansado. Sentia saudades de quem ele de fato era.

Talvez não se lembrassem, talvez nem ele, de quem ele era, mas ele estava disposto a se recuperar, abandonar vícios contraídos em função do cansaço pelo peso de carregar, todas as horas do dia em que não estava dormindo ajudado pelos remédios tarja-preta, esse enorme ego que ele ostentava. Para ele, tudo era muito artificial agora.

Ouviu seus velhos discos do Tom, releu os seus autores favoritos, buscou nas cartas de amor do passado vestígios de quem ele era. Como num velho faroeste, que se lembrava de ter visto na infância e, ao assistir a uma reprise na madrugada inútil da televisão, vê-se que o filme não era bem da forma que ficou gravada no labirinto memória, mas ainda assim soava familiarmente inédito.

Embora não quisesse ser quem ele já fora, procurava aprender o que havia de bom nesse personagem que ele construira e descartar o que era ruim. "Inutilia Truncat", que era a mensagem escrita no visor de seu telefone celular, significa exatamente isso: cortar, eliminar o inútil. E ele havia prestado pouca atenção nisso nos últimos anos.

Ainda era cedo para saber se ele conseguiria, mas o tentar o deixou feliz de um modo estranhamente familiar.


E o espírito, finalmente, sobrenadou.

Um comentário:

  1. Às vezes, de tanto interpretar, incorpora-se algum trejeito do personagem. Ou com essa coisa de se defender, a gente prefere parecer outra coisa e se acostuma com ele.

    De fato, quando se volta a ser o que realmente era, nunca se é o mesmo de antes. Carrega-se as lições que o personagem aprendeu e assume-se a verdadeira pele muito mais dono dela que antes.

    beijo

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