sábado, 3 de dezembro de 2005

A Celebração da Perda

Ele chegou no restaurante um pouco mais cedo do que o combinado. Chovia forte. Sentou-se no bar do restaurante e o garçom, que o conhecia há tempos, trouxe-lhe o de sempre: scotch, 12 anos, sem gelo.

Ele, um jovem ator e diretor de cinema, havia sido recentemente contratado por um grande e tradicional estúdio para levar às telas uma grande história de amor, como aliás costumavam ser os seus filmes, que, embora todos feitos numa escala menor, tinham levado aos cinemas e emocionado um bom número de pessoas e amelhado uma boa safra de prêmios.

Agora, esperava a atriz, uma bela e talentosa atriz, a quem ele havia convidado para jantar na expectativa de oferecer a ela o papel principal do filme, a ser justamente seu par romântico nessa história.

Talvez fosse o filme de sua vida. Contaria uma história das proporções que ele sempre quis contar, sobre esse insondável sentimento a que chamamos amor ideal, que talvez - ele achava, ultimamente - nem existisse ao certo, e se existisse, era em algum canto bem remoto do planeta, onde houvesse duas pessoas que se amassem idealmente.

Ela estava atrasada, ele já estava no quarto copo. Talvez fosse a chuva, talvez tivesse confundido as horas, talvez mesmo um atraso programado - ainda que ligeiramente aflitivo para ele - programando uma entrada triunfal.

Ela era uma estrela de primeira grandeza. Ele galgava rapidamente a hierarquia dessa constelação. Poderia ser o grande sucesso do ano, da década talvez. E mesmo que não fosse, seria uma história linda.

A relação entre o diretor e suas estrelas era o que mais lhe dava prazer no microcosmo do ofício cinematográfico. Esse jantar, ele achava, poderia ser memorável, talvez merecesse alguns parágrafos em seu futuro e provável livro de memórias.

Absorto em seus pensamentos e nos vapores do malte, ele mal viu o tempo passar. Pelo adiantado da hora, ela não viria mais.


E o diretor foi jantar sozinho.

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