quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Projetos

O ano tinha acabado finalmente, os dias que faltavam no calendário eram nulos para ele, apenas no dia 31 ele voltaria a existir. Sempre detestara natal, peru, fio de ovos, barulho de papel rasgando, essas coisas. Tinha sido um ano difícil, de monções e igualmente intensas e longas estiagens. Mas decididamente tinha tudo ficado para trás.

Fora um ano de términos: terminou dois filmes pendentes, duas relações mal-começadas, um quase-casamento, uma série incontável de promessas incumpríveis, feitas e tomadas, um longo recesso sentimental. Especialmente um longo recesso sentimental. Como se um teatro que, depois de anos vazio, fosse desempoeirado e ocupado por quatro peças diferentes (e dois grandes sucessos de bilheteria) em três ou quatro semanas.


Ela entrara na sua vida de uma forma bem comum: através da arte. Várias, senão a totalidade das pessoas interessantes que conhecia entraram em sua vida pela arte. E paulatinamente as coincidências revelavam-se, agigantava-se a possibilidade de uma história concreta, uma bela história. Pareciam ser esses os desejos dela. Ele apenas estava confuso.

Pouco antes, ele havia sido presentado com uma bela história de reciprocidade, que talvez por medo (dela), talvez por incompetência (dele) ou talvez por inexperiencia (de ambos), não tinha dado certo. Agora, incrivelmente, ele recebia outra história incrível que, de novo, só dependia dele e da mocinha envolvida para que desse certo.

E agora ele era mais valente, mais experiente, mais competente e, sobretudo, menos otimista em relação às outras pessoas. Sabia que ia ter que lutar, e não se importava com isso. E ela, ao que tudo indicava, também parecia ter disposição de sobra para isso.

Tudo indicava, ele queria crer que o ano seguinte seria um ano de começos. E tudo o mais seria benvindo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Navegantes

"Quero um montão de tábuas e um motor de pano
Pra passear meu corpo e adormecer meu som
Na esburacada estrada do oceano

Aportarei meu barco apenas de ano em ano
E onde houver silêncio eu ficarei cantando
Pra não deixar morrer o gesto humano

Entenderei as águas e os peixes passando
E se me perguntarem pra onde vou e quando
Responderei: apenas navegando, apenas navegando...

Embarcarei comigo o feminino encanto
Pra que não falte à vida quando for preciso
Uma razão mais forte que o espanto

Semearei meu sangue, meu amor, meu rosto
Pra que depois de mim possa estar presente
Entre as canções que eu não houver composto

Naufragarei um dia em pleno mar sem dono
E submerso em lendas como um visitante
Entre os recifes dormirei meu sono".

(Mestre dos mestres Sidney Miller [1945-1980], falecido precocemente)

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Dois Mestres

Perdido como ele estava, lembraram-lhe dois mestres, dois paradigmas que o fizeram enxergar a situação mais claramente.

Mark Twain, que lhe entrara na vida na infância, como entra na de todos, e revelou-se-lhe mais tarde um mestre na acuidade dos pensamentos, para além do genial escritor infantil que era. Dizia: "Devemos ter cuidado para absorver apenas as lições adequadas de nossas experiências."

Era o enunciado pomposo do paradigma que contava que um certo gato, depois de sentar-se numa boca quente de fogão para furtar alguma comida, decidiu nunca mais chegar perto de fogão algum.

Sir George Bernard Shaw, outro mestre a quem ele recorria freqüentemente, no desespero filosófico constante: "O homem sensato se adapta ao mundo. O homem insensato persiste em adaptar o mundo a si mesmo. Daí que todo o progresso depende do homem insensato."

Ele sentia-se felizmente insensato. Não ia se entregar, já havia feito concessões demais. Isso lhe lembrara um velho professor que repetia uma história grega, que contava que Sócrates perguntou certa vez aos seus alunos o que era o heroísmo.

- Heroísmo é dar a vida pela pátria - teria respondido Platão.

- E se você pudesse fugir da batalha e, assim, fazer com que sua pátria ganhe a guerra? Isso não seria heroísmo? - argüiria de volta o mestre.

"Heroísmo," completa Bernard Shaw, "é fazer o inimigo morrer pela pátria dele, não você pela sua."

E era isso que ele estava disposto agora a fazer.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Lamas

Depois de um dia cansativo, sentou-se na mesa de sempre no Lamas. O garçom, que o conhecia há anos, trouxe o de sempre, e, percebendo a melancolia que tomava conta de seu antigo, embora jovem, cliente, buscou fundo na memória um poema, justamente chamado Lamas, do mestre dos mestres Aldir Blanc.

Dizia assim:


Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:

quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez.


Sem querer (ou por querer), o garçom tinha acertado em cheio a razão da angústia.
Ainda não fora desta vez.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Espelho

Naquele dia, ele era só lembranças. Ele estava apaixonado por ela: lembranças em excesso eram mais dos inequívocos sintomas da paixão. Lembrou-lhe o momento em que se beijaram, o momento em que se perceberam, o momento em que brigaram - sentiu-se tolo, sentiu-se forte, sentiu-se feliz.

Reciprocidade era uma coisa incomum, ainda que menos no cinema do que na vida. Ele achava muito injusto, coisa de roteirista sádico, que se criassem tantos problemas antes que os protagonistas da história ficassem juntos... alguns ele criara por ingenuidade; outros, ela criara por medo.

Para ele era claro que ficariam juntos, apesar dos outros (talvez pensasse assim para não sofrer por antecipação). Em sua vida, bem como em seu próximo filme, cujas filmagens se avizinhavam, ele aprendia que Sartre era um cara que devia ser levado a sério... "O inferno são os outros". Exatamente isso.

Ele estava soterrado pelas lembranças dos momentos mais recentes: tinha a certeza de que o homem que saíra da casa dela era mais maduro do que o homem que ali houvera entrado. Beijaram-se com tanto desejo como poucas vezes ele havia visto, mesmo nos filmes mais inspirados.

Ele parou o carro na garagem, desligou o motor e ficou pensando. Saiu do carro lentamente, chamou o elevador. Entre as dúvidas e as vontades de que essa fatídica noite tivesse infinitas continuações, olhando pelo espelho do elevador, percebeu uma purpurina, brilhante e vermelha, que sua bochecha tinha caprichosamente roubado da blusa dela.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Conselhos

Ele tinha muita sorte. Logo um grande mestre do ofício tinha gostado dele e tinham se tornado amigos. Gostavam de contar histórias sobre o mesmo tema, as infinitas relações entre homens e mulheres, a observação atenta da vida, a mágica arte do encontro. E quando a vida ou o cinema traziam-lhe situações complexas, ele preferia ajoelhar-se diante da experiência de seu mestre e ouvir o que ele tinha a dizer. E ele sempre tinha algo genial a dizer.

Ele o encontrou quase por acaso num bar que ambos costumavam freqüentar. O mestre, um diretor já beirando os stenta, ouviu a história com a devida atenção. Fosse a vida ou fosse um filme, era indiferente, era indiscutivelmente a velha história do encontro entre duas pessoas que se queriam e não podiam ficar juntas. "Os problemas são do tamanho de quem os vê", ele pontuou, citando Jung, "e seria bom se soubéssemos dar atenção apenas aos grandes problemas."

Ele tinha para ele que a paixão era uma angustiazinha que dá no peito da gente e a gente pode deixá-la crescer, atravessar o conturbado período da puberdade para que se torne uma bela mulher e tornarmo-nos amante dela, ou podemos apertá-la pequenininho no peito, que dói enquanto cresce, mas pára de crescer e começa a minguar até que morre. Ele não queria que essa paixão morresse, e sentiu-se uma criança quando o mestre lhe perguntou "você já disse a ela que está apaixonado?".

Claro que ele não tinha dito. Dissera-lhe pouca coisa, ouvira dela pouca coisa também. Entendia muito pouco do lado dela, queria sinceramente poder entender mais. Queria extrair prazer da vida, queria viver belas histórias, queria que isso tudo fosse dividido com alguém especial... e se não fosse ela, não teria problema. Mas se fosse ela, ele deveria muito à vida... presentes como esses a vida dá com extrema avareza.

O mestre lhe apontou um caminho possível, essa história era um filme e de filmes eles entendiam.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Pergunta

Ele gostava dela. Ela dizia que gostava dele e ele não tinha a mais ínfima razão para descofiar disso.

Por que diabos então eles não podiam ficar juntos?

domingo, 4 de dezembro de 2005

Um Segundo

Quando ele saiu do elevador, ela já o esperava com a porta entreaberta. Passava um pouco da meia-noite. Aproximou-se dela, sem saber se a cumprimentava com um beijo no rosto ou diretamente na boca, que ele jamais tinha beijado mas muito o quisera.

De tão gostosa a dúvida, ele sentiu que poderia permanecer ali, parado naquele segundo de decisão, pelo resto de sua vida.

sábado, 3 de dezembro de 2005

De atores e personagens

[O homem que volta pela Porta na Parede jamais será o mesmo homem que saiu por ela. Será mais sábio e menos dogmático; mais feliz, contudo menos satisfeito consigo mesmo; mais humilde em reconhecer sua ignorância, mas ainda assim mais habilitado a compreender o relacionamento entre as palavras e as coisas, a raciocinar sistematicamente sobre o Mistério insondável que ele tenta, ainda que em vão, compreender. Fonte: As Portas da Percepção, Aldous Huxley]



Ainda na Faculdade de Cinema, ele ouvira dizer que, depois de interpretar o Stanley Kowalski, em "Um bonde chamado Desejo", Marlon Brando nunca mais foi o mesmo. Carregou para sempre, em seus outros personagens e em sua vida, esse forte personagem - autobiográfico? - de Tenessee Williams.

Anos depois, ele teve a certeza de que quem escreveu isso - o jornalista René Jordan, se não falhava sua boa memória - tinha toda a razão em acreditar que isso era perfeitamente possível.

Depois de anos interpretando o cansativo porém eficiente personagem de um ator-diretor de cinema, seguro e sedutor, arrogante, verborrágico, culto, ele havia cansado. Sentia saudades de quem ele de fato era.

Talvez não se lembrassem, talvez nem ele, de quem ele era, mas ele estava disposto a se recuperar, abandonar vícios contraídos em função do cansaço pelo peso de carregar, todas as horas do dia em que não estava dormindo ajudado pelos remédios tarja-preta, esse enorme ego que ele ostentava. Para ele, tudo era muito artificial agora.

Ouviu seus velhos discos do Tom, releu os seus autores favoritos, buscou nas cartas de amor do passado vestígios de quem ele era. Como num velho faroeste, que se lembrava de ter visto na infância e, ao assistir a uma reprise na madrugada inútil da televisão, vê-se que o filme não era bem da forma que ficou gravada no labirinto memória, mas ainda assim soava familiarmente inédito.

Embora não quisesse ser quem ele já fora, procurava aprender o que havia de bom nesse personagem que ele construira e descartar o que era ruim. "Inutilia Truncat", que era a mensagem escrita no visor de seu telefone celular, significa exatamente isso: cortar, eliminar o inútil. E ele havia prestado pouca atenção nisso nos últimos anos.

Ainda era cedo para saber se ele conseguiria, mas o tentar o deixou feliz de um modo estranhamente familiar.


E o espírito, finalmente, sobrenadou.

A Celebração da Perda

Ele chegou no restaurante um pouco mais cedo do que o combinado. Chovia forte. Sentou-se no bar do restaurante e o garçom, que o conhecia há tempos, trouxe-lhe o de sempre: scotch, 12 anos, sem gelo.

Ele, um jovem ator e diretor de cinema, havia sido recentemente contratado por um grande e tradicional estúdio para levar às telas uma grande história de amor, como aliás costumavam ser os seus filmes, que, embora todos feitos numa escala menor, tinham levado aos cinemas e emocionado um bom número de pessoas e amelhado uma boa safra de prêmios.

Agora, esperava a atriz, uma bela e talentosa atriz, a quem ele havia convidado para jantar na expectativa de oferecer a ela o papel principal do filme, a ser justamente seu par romântico nessa história.

Talvez fosse o filme de sua vida. Contaria uma história das proporções que ele sempre quis contar, sobre esse insondável sentimento a que chamamos amor ideal, que talvez - ele achava, ultimamente - nem existisse ao certo, e se existisse, era em algum canto bem remoto do planeta, onde houvesse duas pessoas que se amassem idealmente.

Ela estava atrasada, ele já estava no quarto copo. Talvez fosse a chuva, talvez tivesse confundido as horas, talvez mesmo um atraso programado - ainda que ligeiramente aflitivo para ele - programando uma entrada triunfal.

Ela era uma estrela de primeira grandeza. Ele galgava rapidamente a hierarquia dessa constelação. Poderia ser o grande sucesso do ano, da década talvez. E mesmo que não fosse, seria uma história linda.

A relação entre o diretor e suas estrelas era o que mais lhe dava prazer no microcosmo do ofício cinematográfico. Esse jantar, ele achava, poderia ser memorável, talvez merecesse alguns parágrafos em seu futuro e provável livro de memórias.

Absorto em seus pensamentos e nos vapores do malte, ele mal viu o tempo passar. Pelo adiantado da hora, ela não viria mais.


E o diretor foi jantar sozinho.