quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Se eles soubessem...

Partindo de um imperdoável clichê, que vem a ser melhor do que chegar, ao final das contas a um deles, diga-se somente que loucuras feitas por amor são válidas. E pouco importa que seja um amor vindouro. Ou apenas a promessa de um.

Ela poderia chegar a qualquer momento, ele fumava ansioso um cigarro atrás do outro, disfarçando o cheiro com incenso. O apartamento estava estranhamente arrumado. Ele era outro, ela, seguindo o curso inelutável dos anos, deveria também ser outra. Teriam a mesma química de outros anos?, martelava continuamente sua cabeça. Ele esperava o interfone tocar, trazendo a chance de recomeçar uma história da qual o destino é o único vilão, que caprichosamente não permitiu o seguimento natural. A espera lhe era torturante.

Anos antes, bem antes de se tornar quem era hoje, ele chegou mais cedo ao aeroporto, o destino ainda incerto. Hesitava entre a burocrática visita aos pais ou atender ao chamado dela, fazendo escala em sua casa antes de cumprir a prometida reunião de toda a família.

Haviam se conhecido quando ele namorava uma das melhores amigas dela. Ele a achava apenas comuníssima, embora admirasse sua beleza, oculta sob intensa formação católico-interiorana. Ela o via arrogante, aliás, como muitos o vêem até hoje. Eram um casal improvável, ainda mais porque havia em jogo uma amizade e um namoro construído solidamente sobre o amor.

Tudo acabou começando numa garrafa de whisky. Aliás, quase todas as grandes histórias começam numa garrafa de whisky. Eram os três àquela hora, debruçados sobre os vapores. Ao que a primeira caiu, sobraram, pela primeira vez frente a frente, sozinhos, os dois: ela com medo de não ter assunto, ele com medo do tédio.

O segundo passo, separado por meses, foi um singelo e-mail de feliz aniversário, que ela inesperadamente recebeu dele. Dali, o namoro com a amiga dela já fosse quiça passado, mas nunca havia lhe ocorrido que uma história assim pudesse acontecer. Da comunicação eletrônica, veio a súbita noção de que era como se já se conhecessem de tempos imemoriais, da vontade de conhecer melhor um ao outro. E para o convite para um fim-de-semana juntos entre o natal e o ano-novo, bastou um telefonema do saguão do aeroporto.

Em pouco mais de duas horas ele sentava-se no sofá da casa dela. Ali, sabiam o que seria inevitável. Longas horas de loucuras, regadas aos mais vulgares álcool, poesia e olhar. Escorreu a tarde inteira como também escorreria a noite, e as únicas testemunhas primeiro beijo deles haviam sido o nascente e algum carrilhão que soava, num canto próximo, algo que lhes pareciam, embriagados, o Bolero de Ravel.

Ela, a quem a simples amizade dele bastaria, fazia com que ele se sentisse uma criança; ele, tão acostumado a ser forte e saber tudo, adorava isto. Ela, apesar de não ter nada de Capitu, era muito mais mulher do que ele era homem. Ele teve vontade de jogar tudo para o alto, passar o Ano-Novo com ela, mas acabou seguindo seu rumo à casa dos pais.

Desde então, não se viram mais. Ela casou e descasou, ele lançou seus filmes e teve seu casamento encerrado nas páginas das revistas, ela fez planos, ele teria tentado o suicídio se tivesse coragem. Viveram, enfim. E o reencontro que adiaram paulatinamente ao longo dos anos, agora era inevitável.

Ele realizou que haviam esperado dez anos. E agora, matavam-lhe os dez minutos que separavam o aeroporto de sua casa. Ela estava chegando.




O interfone tocou. Era ela.

3 comentários:

  1. não será dez anos...a partir d hoje pode ser apenas 10 dias...quem sabe...outro pedido???

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  2. e como não falar de si?

    bolero de ravel é tudo!

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  3. Cada vez que venho aqui descubro mais alguma coisa entre o céu e a terra, e me abstenho de tirar conclusões. Porque quando eu não me faço de boba, me arrisco ser pretensiosa.

    'Comuníssima' e 'criação católico-interiora' me doem muito. E eu conheço esse menino, tenho o sorriso dele entranhado nas minhas lembranças.

    Mas como disse o Zé, estou cansada de conjecturas.

    Beijo

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