sábado, 5 de novembro de 2005

O Primeiro Dia

Estavam todos ansiosos. Era um tempo pretérito, em que ainda se afirmavam coisas. Ele, o diretor, era um homem ao mesmo tempo encantador e assustador. Aos que o conheciam, aos que se davam ao trabalho de entendê-lo, ainda que fosse difícil, ele era fantástico. Os outros não lhe importavam.

Primeiro dia de uma série de sete, estressantes tanto quanto empolgantes. Havia ali sérias candidatas a estrelas, onstage e backstage. A atriz, que era linda , tivesse sido esculturada por Deus em pessoa, além de um grande desfile de produtoras, assistentes, maquiadoras, curiosas, figurantes, publicitárias. O que não faltavam eram belas mulheres, e porque não dizê-lo, belos homens, candidatas a figurarem numa constelação cuja vastidão impressionava menos do que o brilho que dela emanava, de fazer inveja a mil luas cheias.

Algo no ar indicava que ele surtaria. Ele era, de certa forma, o centro das atenções. Afinal, era o ator, o diretor e também o personagem do filme. Para ele, o surto era não só esperado como inelutável, e isso o agradava. A arte, para ele, era a loucura sob controle. E havia um certo instinto que o controlava.

Dentro de um set, um diretor adquire um ar de respeitabilidade, se torna uma criatura estranhamente sedutora. E ele, claro, sabia usar isso a seu favor. Já havia esgotado incontáveis ampulhetas desde que tivera uma estrela a quem dedicar seus versos infantis. Embora o conjugado coração não recebesse visitas, que nem eram esperadas, ele o mantinha arrumado. Vai que a vida, essa rameira, lhe pregasse uma surpresa, sob a forma de um semblante feminino?
Ele devia estar preparado.

E algo, pairando sobre o set, afirmava a quem pudesse, ou quisesse, sentir que ele estava.

Um comentário:

  1. eu diria num tom particularmente meu e que você conhece bem, gesticulando delicada, "como não falar de si, enfim". mas eu pareceria repetitiva. ainda que viver e escrever, que é viver ainda, e de forma tão genuína, eu diria que viver é uma eterna repetição das mesmas imagens e - sim, sim - das mesmas palavras.

    o que muda é quem sabe usar, as permutações possíveis, e é claro:
    saber entender não apenas o que se diz, mas quem diz.

    então eu não diria tanto. eu diria apenas que sempre há o que paira no ar. mas se as párticulas depositam-se ligeiras sobre a superfície mais próxima, a sensação não é de conclusão, mas de perda.


    beijo, rafa!

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