segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Angústia

[Angústia, por Kierkegaard: determinação que revela a condição espiritual do homem, caso se manifeste de maneira psicologicamente ambígua e o desperte para a possibilidade de ser livre. Fonte: Aurélio.]


O universo brilhava lá fora. Ele hoje era uma estrela, mas não o fora sempre. Um bom ator, diretor competente, caminhava numa intensa diagonal, para frente e para cima. Mas nem sempre fora assim.

Se hoje ele caminhava com naturalidade entre estrelas de todas as sortes, era por seu esforço próprio: assim ele o quisera e para isso ele trabalhara arduamente seu corpo e sua inteligência, seu charme, sua memória, sua cultura.

Na galáxia em que ele vivia, novas estrelas surgiam diuturnamente. Eis que, no brilho ligeiramente mais intenso de uma delas, ele viu seu sonho se realizar e finalmente, depois de longos anos, alguém alugava seu conjugado coração. Não que houvesse faltado pretendentes nessa longa estiagem, mas nenhuma lhe comovia a ponto de receber as chaves, como ela agora lhe comovera.

Seu coração estivera seco como um saleiro, mas agora chovia torrencialmente, e aos poucos, o que era irrigação e renovação se transformou em tempestade.
A estrela dele brilhava mais do que nunca, e alguns olhos refletiram este brilho. Eram todas estrelas, era uma constelação inteira, embora ele não estivesse preparado - e rezava para não estar nunca - para ser um sol.


Cansado de uma festa à qual ele não fora, ele sentou-se sozinho em seu bar favorito para beber. Havia de se aconselhar com os derradeiro de seus conselheiros: o whisky e o tabaco. Foram horas de aconselhamento.

Chegou em casa, tirou o paletó, olhou-se no espelho pálido do banheiro, lavou o rosto. Havia concluído dolorosamente muitas coisas nos últimos dias: a força que lhe restava, ele a usaria para não concluir mais nada. Apenas continuaria brilhando sua estrela e caminhando para frente. E para cima.

E quem quisesse admirar seu brilho, que admirasse. Quem quissesse ocupar o lugar sagrado que fora oferecido, que ocupasse. Ou que não admirassem ou que não ocupassem, ou nem uma coisa nem outra.

A angústia lhe era pior do que a solidão, com a qual, por pior que fosse, ele já estava acostumado. E tudo lhe era muito simples: a arte, mágica e divina, do encontro entre duas pessoas.


O universo continuava brilhando lá fora, à espera dele.

sábado, 26 de novembro de 2005

Decisões

Ele nunca estivera tão dividido antes.

A vida lhe acenava, pela primeira vez em alguns anos, com a possibilidade de vencer a inércia. Ele já não sabia se, apesar de desejar intensamente, ainda era capaz de apaixonar-se novamente.

A situação toda era muito confusa: ambos eram comprometidos, e muito embora ele, àquela altura, já fosse um homem livre, ela ainda não sabia.

Encontraram-se numa festa. Havia um clima tenso entre eles, sólido que qualquer pessoa atenta poderia perceber. Seus olhos procuraram-se e encontraram-se e fugiram-se tantas vezes ao longo da festa, que a segurança habitual dele faltava-lhe às vezes. Ele tentava negar inutilmente que isso não estava acontecendo, mesmo tendo tanto sonhado com isso.

No pouco que conversaram, ela cobrou-lhe decisões. Era como se ela tivesse lido nos olhos deles que ele já não estava mais tão dividido. Mas ainda assim, ele sabia que deveria escolher claramente aquilo que, de forma ou de outra, já havia escolhido.

Ele saiu da festa cheio de dúvidas. Ela tinha o dom de instigá-lo, de provocar-lhe reflexões. Ele sequer sabia se estava sofrendo.



Ele chegou em casa já sem dúvidas e estranhamente feliz.

Pedra Preciosa

Ela era uma estrela, que, por opção própria (ele achava), preferia não brilhar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Aluga-se

No coquitel do lançamento, ele era o centro das atenções. Também pudera, era o diretor e o ator principal do filme, como bem fora de seus últimos filmes.

Havia por ali, entre admiradores e invejosos, uma miríade de pequenas e grandes estrelas, pretéritas e futuras. A atenção dele, excepcionalmente, estava muito dispersa. Havia, em seu útero criativo, o vazio natural de um filme lançado e as milhares de possibilidades do que fazer agora.

Só que seu próximo projeto era pessoal. Era ocupar, da melhor forma possível, o seu conjugado coração, que ostentava, além de uma secular camada de poeira, uma enorme placa de aluga-se, ali deixada pela última estrela que o ocupara, cadente como todas.

Com a vista turvada de nebulosas, algumas estrelas, começando a brilhar, nem lhe chamaram a atenção inicialmente. Foi só acontecer numa ocasião seguinte, uma dessas infinitas mesas de bar com amigos - essas mesas onde surgem-se grandes paixões e grandes idéias, todas regadas pelos vapores do álcool - que ele finalmente reparou em uma delas.

E parecia interessante. Um ar infantil, a face enrubescida pela timidez e pelo álcool, a funda insegurança de quem traz uma cicatriz recente. E, sobretudo, uma inconfundível e inexplicável atração.


Nos últimos dias, ele havia feito uma faxina no conjugado coração. Já era hora de alguém arrancar-lhe aquele incômodo aluga-se, ainda que ele tivesse um medo irracional de que esta hora houvesse chegado. No fundo, ele sabia que não seria ela, mas sentia que este momento estava próximo. Se não fosse mesmo com ela, só esse sentimento de que algo estava a caminho, de que algo mudara, já o tornava especialmente feliz.

E, como ditava sua experiência recente, isso tudo talvez não passasse de um sonho. Mais um deles, entrecortado pelas manhãs.

sábado, 5 de novembro de 2005

O Primeiro Dia

Estavam todos ansiosos. Era um tempo pretérito, em que ainda se afirmavam coisas. Ele, o diretor, era um homem ao mesmo tempo encantador e assustador. Aos que o conheciam, aos que se davam ao trabalho de entendê-lo, ainda que fosse difícil, ele era fantástico. Os outros não lhe importavam.

Primeiro dia de uma série de sete, estressantes tanto quanto empolgantes. Havia ali sérias candidatas a estrelas, onstage e backstage. A atriz, que era linda , tivesse sido esculturada por Deus em pessoa, além de um grande desfile de produtoras, assistentes, maquiadoras, curiosas, figurantes, publicitárias. O que não faltavam eram belas mulheres, e porque não dizê-lo, belos homens, candidatas a figurarem numa constelação cuja vastidão impressionava menos do que o brilho que dela emanava, de fazer inveja a mil luas cheias.

Algo no ar indicava que ele surtaria. Ele era, de certa forma, o centro das atenções. Afinal, era o ator, o diretor e também o personagem do filme. Para ele, o surto era não só esperado como inelutável, e isso o agradava. A arte, para ele, era a loucura sob controle. E havia um certo instinto que o controlava.

Dentro de um set, um diretor adquire um ar de respeitabilidade, se torna uma criatura estranhamente sedutora. E ele, claro, sabia usar isso a seu favor. Já havia esgotado incontáveis ampulhetas desde que tivera uma estrela a quem dedicar seus versos infantis. Embora o conjugado coração não recebesse visitas, que nem eram esperadas, ele o mantinha arrumado. Vai que a vida, essa rameira, lhe pregasse uma surpresa, sob a forma de um semblante feminino?
Ele devia estar preparado.

E algo, pairando sobre o set, afirmava a quem pudesse, ou quisesse, sentir que ele estava.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Se eles soubessem...

Partindo de um imperdoável clichê, que vem a ser melhor do que chegar, ao final das contas a um deles, diga-se somente que loucuras feitas por amor são válidas. E pouco importa que seja um amor vindouro. Ou apenas a promessa de um.

Ela poderia chegar a qualquer momento, ele fumava ansioso um cigarro atrás do outro, disfarçando o cheiro com incenso. O apartamento estava estranhamente arrumado. Ele era outro, ela, seguindo o curso inelutável dos anos, deveria também ser outra. Teriam a mesma química de outros anos?, martelava continuamente sua cabeça. Ele esperava o interfone tocar, trazendo a chance de recomeçar uma história da qual o destino é o único vilão, que caprichosamente não permitiu o seguimento natural. A espera lhe era torturante.

Anos antes, bem antes de se tornar quem era hoje, ele chegou mais cedo ao aeroporto, o destino ainda incerto. Hesitava entre a burocrática visita aos pais ou atender ao chamado dela, fazendo escala em sua casa antes de cumprir a prometida reunião de toda a família.

Haviam se conhecido quando ele namorava uma das melhores amigas dela. Ele a achava apenas comuníssima, embora admirasse sua beleza, oculta sob intensa formação católico-interiorana. Ela o via arrogante, aliás, como muitos o vêem até hoje. Eram um casal improvável, ainda mais porque havia em jogo uma amizade e um namoro construído solidamente sobre o amor.

Tudo acabou começando numa garrafa de whisky. Aliás, quase todas as grandes histórias começam numa garrafa de whisky. Eram os três àquela hora, debruçados sobre os vapores. Ao que a primeira caiu, sobraram, pela primeira vez frente a frente, sozinhos, os dois: ela com medo de não ter assunto, ele com medo do tédio.

O segundo passo, separado por meses, foi um singelo e-mail de feliz aniversário, que ela inesperadamente recebeu dele. Dali, o namoro com a amiga dela já fosse quiça passado, mas nunca havia lhe ocorrido que uma história assim pudesse acontecer. Da comunicação eletrônica, veio a súbita noção de que era como se já se conhecessem de tempos imemoriais, da vontade de conhecer melhor um ao outro. E para o convite para um fim-de-semana juntos entre o natal e o ano-novo, bastou um telefonema do saguão do aeroporto.

Em pouco mais de duas horas ele sentava-se no sofá da casa dela. Ali, sabiam o que seria inevitável. Longas horas de loucuras, regadas aos mais vulgares álcool, poesia e olhar. Escorreu a tarde inteira como também escorreria a noite, e as únicas testemunhas primeiro beijo deles haviam sido o nascente e algum carrilhão que soava, num canto próximo, algo que lhes pareciam, embriagados, o Bolero de Ravel.

Ela, a quem a simples amizade dele bastaria, fazia com que ele se sentisse uma criança; ele, tão acostumado a ser forte e saber tudo, adorava isto. Ela, apesar de não ter nada de Capitu, era muito mais mulher do que ele era homem. Ele teve vontade de jogar tudo para o alto, passar o Ano-Novo com ela, mas acabou seguindo seu rumo à casa dos pais.

Desde então, não se viram mais. Ela casou e descasou, ele lançou seus filmes e teve seu casamento encerrado nas páginas das revistas, ela fez planos, ele teria tentado o suicídio se tivesse coragem. Viveram, enfim. E o reencontro que adiaram paulatinamente ao longo dos anos, agora era inevitável.

Ele realizou que haviam esperado dez anos. E agora, matavam-lhe os dez minutos que separavam o aeroporto de sua casa. Ela estava chegando.




O interfone tocou. Era ela.