sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Sartre, basicamente

Venta. Sentados numa mureta sobre algum mar:

- Eu quero ser tua para sempre.
- Quer ser minha ou quer ser livre?
- Eu quero ser tua. Abro mão da minha liberdade.
- Você não pode.
- Eu faço o que eu quiser. Eu não quero ser livre, quero ser tua.
- Eu só te quero livre.

Diante do paradoxo, ela chora. Que merda de liberdade era essa que lhe prometera ele, se nem ao menos ela podia deixar, por opção própria, de ser livre.

A liberdade dela o encantava. Desde os longos cabelos pretos que esvoaçavam à prea-mar, as saias ripongas lhe ocultando as pernas com que tanto ele sonhara. Ela era uma criança, não entendia bem o que se passava na cabeça dela. Era uma criança avançada para a idade dela, confessava ele. Isso, no entanto, não deixava para trás a infância estampada no rosto dela. Era gostosa, e daí?

Deformava-lhe o sorriso, o choro. Nem se lembrava por que ela estava mesmo chorando. Ela queria ser dele e estava acostumada a ter sempre o que queria. Não fora acostumada à rejeição. Sua cabeça dava um nó ao pensar que o que havia entre eles era admiração intensa, tesão e um belo paradoxo. Ele a queria livre. Ela, dele, perdia essa condição.

- Pára de chorar.
- Não quero, porra. Você brinca comigo e depois vem com esse papo.
- Pára de chorar.

Ele se levanta e vai embora. Ela fica pensando. Recebendo de maneira ácida demais para seus poucos anos a dura lição de que não controlamos a vida. Ele vai embora, segurando as lágrimas. Apesar da vocação de professor, não era esse o tipo de lição que ele gostava de ensinar.

3 comentários:

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    Rod

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  2. nossa, Rafa, amei.
    muito bom mesmo.

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  3. Para sempre é muito tempo. É um tempo muito grande, igual nunca mais. Geralmente as pessoas acreditam nisso quando estão apaixonadas, ou amam.
    Talvez, justo por ela ser uma menina, não soubesse que não dá pra ser de alguém, integralmente, por tanto tempo, ou que mesmo quando alguém resolve se entregar ao outro, continua sendo dono de si mesmo.

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