domingo, 30 de outubro de 2005

Grand Monde, Veuve Cliquot e Je ne sais quois...

Na última vez que ele a vira, ela era nítida e quente. Agora, jazia estampada numa frase suja de jornal, entre uma greve de ferroviários e um anúncio das Casas da Banha.

Ele, aprendiz de malandro, tinha herdado da família, outrora muito rica, bons modos e um punhado de dívidas. Seu je ne sais quois lhe abria as portas do grand monde, por onde ele sobrevivia graças ao seu charme e aos seus belos olhos verdes, apesar de seu natural talento para a confusão.

Até que caiu de amores por ela. Tinham se conhecido em Angra, numa festa cheia de artistas de cinema e sobrenomes ilustres, a nata do jet set internacional, oferecida por um outrora poderoso senador da República. Ela acompanhava um empresário alemão, encantado pelo tom tropical das peles de nossas meninas.

Uma louríssima atriz, às beiras do coma alcóolico, já fora de seus saltos-altos, brigava aos altos brados com seu celebrado marido, o diretor que lhe tinha dado o estrelato de presente de casamento, o ator com quem fazia par romântico nas telas mundo afora. Acusava-o de pouco interesse sexual, para quem quisesse ouvir. E todos ouviam. Ele admirou a impavidez com que o diretor contornou a situação. Essa classe, só no cinema, pensou, talvez tenha comentado em voz baixa.

Todos, inclusive ele, já tinham bebido champagne demais. Nem todo dia a Viúva Cliquot lhe fazia companhia a noite toda, ele tinha que aproveitar. Ela, por outro lado, tinha bebido demais, não estava lá para se divertir. Aliás, se divertir é o que ela menos tinha feito desde que tinha aceitado acompanhar esse gordo alemão radicado na Suíça, em troca de um punhado de Euros...

Quando ela decidiu ir embora, ele já flanava pelas areias da praia. Estavam numa ilha, seria tudo muito real para aquela noite mágica se eles não se encontrassem. Acabaram se encontrando na praia mesmo, donde da paixão instantânea, solúvel em doses generosas de champagne e solidão, passaram rapidamente à conversa lacônica e sem sentido que pontua inícios de grandes romances, e depois à fúria sexual que toma os corpos dos homens desprevenidos, já no convés de um pequeno que tomaram emprestado para este nobre fim.

E como convém nesses casos, ele foi acordado por vozes distantes, pela luz do sol. Tudo junto. Dois seguranças lhes haviam descoberto lá... mas ela não estava mais lá... ele tentou explicar, mas não pareciam os dois brutamontes muito dispostos ao bom colóquio... acabou que, depois dos (para ele) imerecidos tabefes, sobraram-lhe uma dor de cabeça, um par de hematomas e ligeiras escoriações... faltaram-lhe, no entanto, lembranças acuradas da noite anterior, bem como os poucos reais de sua carteira, que evaporaram junto com aquela que tinha, ele desde já sabia, jogado sua vida de cabeça para o ar.

E que agora ele via, foto no jornal.

Um comentário:

  1. nossa, rasgante.

    tem momentos em que eu te vejo falar, é incrível quando a gente imprime o que é no que escreve.

    muito bom, rafa, muito bom!


    ;**

    ResponderExcluir