segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Amanhã

Ele chegou em casa, ainda meio zonzo do whisky que tomava com o padrinho desde as cinco da tarde. Não notou nada de estranho quando jogou o paletó sobre o sofá vermelho e acendeu o abajur.

Já tirando a gravata - italiana, claro - dirigiu-se ao quarto. Uma nota de perfume perdida no ar chamou sua atenção... ele conhecia aquele perfume, mas a última lembrança dele havia ficado perdida na memória, distante... apenas uma vez, numa banca de jornal ele o sentira de longe, mas seu coração impôs o esquecimento.

Agora, ela estava ali. O mesmo perfume. Não podia acreditar que ela tinha voltado. Ele havia querido muito que ela voltasse, mas agora não sabia. Quando ela o deixou, ele era apenas um jovem e promissor diretor de cinema, recém-saído das barras dos professores da faculdade.

Agora, era um respeitado - embora ainda jovem, no início da casa dos trinta - diretor e ator, com passagens pelo cinema europeu, um convite de Hollywood e um punhado de prêmios importantes. Ele não sabia se devia aceitá-la de volta, se cabia aceitá-la de volta. Se é que era isso mesmo que ela queria, se é que era para isso que ela estava ali. De qualquer forma, ela estava deitada em sua cama.

Desde que ela o deixara, ele chorou muito. Sofrera, sem saber o que havia a vida feito dela. Levou tempo até se reerguer, e, muito embora não tivesse tido, entre as tantas mulheres que teve desde então, outro amor, conseguiu achar um ponto de equilíbrio, com o qual vinha vivendo muito bem nos últimos meses. Certo que ela lhe facilitara isso, sumindo no mundo sem deixar rasto. Durante muito tempo, ele sentiu como se os cabelos dela ainda colassem em seu rosto exausto e suado.

Ele sabia que ninguém percorria os caminhos dela tão bem como ele. Ele sabia, sabe-se lá como, fazer fluir o prazer secreto do ventre dela, como se a natureza lhe garantisse tal conhecimento em prol de objetivos maiores e inomináveis.

As lembranças lhe brotavam aos borbotões. Tanto aqueles corpos já haviam se entrelaçado sobre aquela cama, onde ela agora dormia inocentemente. Cinco ou seis anos atrás, eles arrasavam aquele quarto e aquelas almas provando, a quem pudesse ter ciência, que o amor é tempestade.

Afogado nas lembranças, ele dormiu no sofá da sala.

domingo, 30 de outubro de 2005

Grand Monde, Veuve Cliquot e Je ne sais quois...

Na última vez que ele a vira, ela era nítida e quente. Agora, jazia estampada numa frase suja de jornal, entre uma greve de ferroviários e um anúncio das Casas da Banha.

Ele, aprendiz de malandro, tinha herdado da família, outrora muito rica, bons modos e um punhado de dívidas. Seu je ne sais quois lhe abria as portas do grand monde, por onde ele sobrevivia graças ao seu charme e aos seus belos olhos verdes, apesar de seu natural talento para a confusão.

Até que caiu de amores por ela. Tinham se conhecido em Angra, numa festa cheia de artistas de cinema e sobrenomes ilustres, a nata do jet set internacional, oferecida por um outrora poderoso senador da República. Ela acompanhava um empresário alemão, encantado pelo tom tropical das peles de nossas meninas.

Uma louríssima atriz, às beiras do coma alcóolico, já fora de seus saltos-altos, brigava aos altos brados com seu celebrado marido, o diretor que lhe tinha dado o estrelato de presente de casamento, o ator com quem fazia par romântico nas telas mundo afora. Acusava-o de pouco interesse sexual, para quem quisesse ouvir. E todos ouviam. Ele admirou a impavidez com que o diretor contornou a situação. Essa classe, só no cinema, pensou, talvez tenha comentado em voz baixa.

Todos, inclusive ele, já tinham bebido champagne demais. Nem todo dia a Viúva Cliquot lhe fazia companhia a noite toda, ele tinha que aproveitar. Ela, por outro lado, tinha bebido demais, não estava lá para se divertir. Aliás, se divertir é o que ela menos tinha feito desde que tinha aceitado acompanhar esse gordo alemão radicado na Suíça, em troca de um punhado de Euros...

Quando ela decidiu ir embora, ele já flanava pelas areias da praia. Estavam numa ilha, seria tudo muito real para aquela noite mágica se eles não se encontrassem. Acabaram se encontrando na praia mesmo, donde da paixão instantânea, solúvel em doses generosas de champagne e solidão, passaram rapidamente à conversa lacônica e sem sentido que pontua inícios de grandes romances, e depois à fúria sexual que toma os corpos dos homens desprevenidos, já no convés de um pequeno que tomaram emprestado para este nobre fim.

E como convém nesses casos, ele foi acordado por vozes distantes, pela luz do sol. Tudo junto. Dois seguranças lhes haviam descoberto lá... mas ela não estava mais lá... ele tentou explicar, mas não pareciam os dois brutamontes muito dispostos ao bom colóquio... acabou que, depois dos (para ele) imerecidos tabefes, sobraram-lhe uma dor de cabeça, um par de hematomas e ligeiras escoriações... faltaram-lhe, no entanto, lembranças acuradas da noite anterior, bem como os poucos reais de sua carteira, que evaporaram junto com aquela que tinha, ele desde já sabia, jogado sua vida de cabeça para o ar.

E que agora ele via, foto no jornal.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Entre a Serpente e a Estrela

Há um brilho de faca
onde o amor vier
e ninguém tem o mapa
da alma da mulher
ninguém sai com o coração sem sangrar
ao tentar revê-la
um ser maravilhoso
entre a serpente e a estrela
um grande amor do passado se transforma em aversão
e os dois lado a lado
corroem o coração
não existe saudade mais cortante
que a de um grande amor ausente
dura feito um diamante
corta a ilusão da gente
toco a vida pra frente
fingindo não sofrer
mas no peito dormente
espero um bem querer
e sei que não será surpresa
se o futuro me trouxer
o passado de volta
no semblante de mulher

(Aldir Blanc, mestre dos mestres)

domingo, 23 de outubro de 2005

As Estrelas

Ela era a estrela da vida dele. Uma bela atriz, arrebatava platéias. Tinha sido, desde o começo, a inspiração que lhe deu bons filmes e noites igualmente boas, e ele esperava que fosse apenas o começo, que tudo o mais haveria de vir, esquecendo de propósito as tantas vezes que começou projetos de vida. Houvera planos frustrados bastantes para dez encarnações em sua manga.

Certo, ela não era a primeira estrela. Houvera outras, outro tempo. Atrizes sempre foram seu ponto fraco. Louras, então, diabos! Mas ele sabia quando punha os olhos sobre uma estrela. Esta ele havia conhecido num filme cuja protagonista havia sido escrita para ela, e ficaram juntos antes mesmo da estréia. Ele atribuía muito disso ao charme do ator-diretor, razão-emoção, loucura sob controle. O caos numa gaiola, como ele dizia.

- Nunca conheci um homem como você. Eu te amo para sempre.
- Depois do filme, você nem vai querer me ver.
- Claro que vou. Você me conquistou.
- Você sabe que não.

Ele sabia que sim.

Depois deste filme, com o tesão ainda turvando-lhe as vistas, veio outro filme. Viriam outros, ele sabia, afinal era essa a sua profissão, e viriam outras atrizes talvez. O céu era de brigadeiro, desviava-se dos cúmulos. O segundo filme trouxe asperezas, ciúme, pequenezas, tornou-se nublado o céu.

Ele sabia que não tiveram tempo de amar um ao outro como mereciam, como quiseram, como planejaram. Tinha sido pouco tempo demais. Ela fora, na vida dele, uma estrela de uma só temporada.

Afinal ele era jovem, teria em sua vida outras tantas estrelas, tantas ele quisesse. Danem-se. A estrela que ele queria, cintilava cada vez com menos intensidade, deixava seu seu cada vez mais umbroso.

Não sabia se ele se desinteressava desse tipo vazio, como se buscasse um grande e verdadeiro amor, cujo mito ele ajudava o cinema a propagar, ou se apenas eram as estrelas, que caíam de seu céu rápido demais. E ele nem podia fazer um pedido.

sábado, 22 de outubro de 2005

Iracema

Não tem o cabelo negro como a asa da graúna, a minha Iracema.
A minha Iracema não voou para a América,
Não é virgem nem tem lábios de mel.

A minha Iracema faz ponto na Praça Mauá.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Sartre, basicamente

Venta. Sentados numa mureta sobre algum mar:

- Eu quero ser tua para sempre.
- Quer ser minha ou quer ser livre?
- Eu quero ser tua. Abro mão da minha liberdade.
- Você não pode.
- Eu faço o que eu quiser. Eu não quero ser livre, quero ser tua.
- Eu só te quero livre.

Diante do paradoxo, ela chora. Que merda de liberdade era essa que lhe prometera ele, se nem ao menos ela podia deixar, por opção própria, de ser livre.

A liberdade dela o encantava. Desde os longos cabelos pretos que esvoaçavam à prea-mar, as saias ripongas lhe ocultando as pernas com que tanto ele sonhara. Ela era uma criança, não entendia bem o que se passava na cabeça dela. Era uma criança avançada para a idade dela, confessava ele. Isso, no entanto, não deixava para trás a infância estampada no rosto dela. Era gostosa, e daí?

Deformava-lhe o sorriso, o choro. Nem se lembrava por que ela estava mesmo chorando. Ela queria ser dele e estava acostumada a ter sempre o que queria. Não fora acostumada à rejeição. Sua cabeça dava um nó ao pensar que o que havia entre eles era admiração intensa, tesão e um belo paradoxo. Ele a queria livre. Ela, dele, perdia essa condição.

- Pára de chorar.
- Não quero, porra. Você brinca comigo e depois vem com esse papo.
- Pára de chorar.

Ele se levanta e vai embora. Ela fica pensando. Recebendo de maneira ácida demais para seus poucos anos a dura lição de que não controlamos a vida. Ele vai embora, segurando as lágrimas. Apesar da vocação de professor, não era esse o tipo de lição que ele gostava de ensinar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Nem Cais, Nem Barco

É que tudo começa do começo. E esse começo foi um nome e daí a chance de homenagear, justamente, o mestre dos mestres.


O meu amor não é o cais
Não é o barco
É o arco da espuma
Que, desfeito, eu sou...

É tudo e coisa nenhuma
Entre a proa e a bruma, o amor
É a lembrança que enfuna
Velas na escuna que naufragou...

Não é no livro antigo o olor
De rosa que eu recebi
Não é a ode, a loa
Em Fernando Pessoa
Mas é a nostalgia
Do que eu não li...

Não é o camafeu
Exposto na vitrine, em loja de penhor
Mas é o que doeu
No peito feito um crime
Ao homem que o trocou...

É o olhar de um instante
Fixando o amante
Em plena traição
Que há em noivas degoladas no caramanchão...

É o vulto de mulher
Há muito tempo morta
Em frente à penteadeira...
É o vazio que a
Ausência dela ocupa ao ver sua cadeira...

A chuva dessa tarde trouxe Tito Madi
E apenas eu ouvia...
Ah, o amor é estar no inferno ao som da Ave Maria!

(Aldir Blanc)