quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Projetos

O ano tinha acabado finalmente, os dias que faltavam no calendário eram nulos para ele, apenas no dia 31 ele voltaria a existir. Sempre detestara natal, peru, fio de ovos, barulho de papel rasgando, essas coisas. Tinha sido um ano difícil, de monções e igualmente intensas e longas estiagens. Mas decididamente tinha tudo ficado para trás.

Fora um ano de términos: terminou dois filmes pendentes, duas relações mal-começadas, um quase-casamento, uma série incontável de promessas incumpríveis, feitas e tomadas, um longo recesso sentimental. Especialmente um longo recesso sentimental. Como se um teatro que, depois de anos vazio, fosse desempoeirado e ocupado por quatro peças diferentes (e dois grandes sucessos de bilheteria) em três ou quatro semanas.


Ela entrara na sua vida de uma forma bem comum: através da arte. Várias, senão a totalidade das pessoas interessantes que conhecia entraram em sua vida pela arte. E paulatinamente as coincidências revelavam-se, agigantava-se a possibilidade de uma história concreta, uma bela história. Pareciam ser esses os desejos dela. Ele apenas estava confuso.

Pouco antes, ele havia sido presentado com uma bela história de reciprocidade, que talvez por medo (dela), talvez por incompetência (dele) ou talvez por inexperiencia (de ambos), não tinha dado certo. Agora, incrivelmente, ele recebia outra história incrível que, de novo, só dependia dele e da mocinha envolvida para que desse certo.

E agora ele era mais valente, mais experiente, mais competente e, sobretudo, menos otimista em relação às outras pessoas. Sabia que ia ter que lutar, e não se importava com isso. E ela, ao que tudo indicava, também parecia ter disposição de sobra para isso.

Tudo indicava, ele queria crer que o ano seguinte seria um ano de começos. E tudo o mais seria benvindo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Navegantes

"Quero um montão de tábuas e um motor de pano
Pra passear meu corpo e adormecer meu som
Na esburacada estrada do oceano

Aportarei meu barco apenas de ano em ano
E onde houver silêncio eu ficarei cantando
Pra não deixar morrer o gesto humano

Entenderei as águas e os peixes passando
E se me perguntarem pra onde vou e quando
Responderei: apenas navegando, apenas navegando...

Embarcarei comigo o feminino encanto
Pra que não falte à vida quando for preciso
Uma razão mais forte que o espanto

Semearei meu sangue, meu amor, meu rosto
Pra que depois de mim possa estar presente
Entre as canções que eu não houver composto

Naufragarei um dia em pleno mar sem dono
E submerso em lendas como um visitante
Entre os recifes dormirei meu sono".

(Mestre dos mestres Sidney Miller [1945-1980], falecido precocemente)

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Dois Mestres

Perdido como ele estava, lembraram-lhe dois mestres, dois paradigmas que o fizeram enxergar a situação mais claramente.

Mark Twain, que lhe entrara na vida na infância, como entra na de todos, e revelou-se-lhe mais tarde um mestre na acuidade dos pensamentos, para além do genial escritor infantil que era. Dizia: "Devemos ter cuidado para absorver apenas as lições adequadas de nossas experiências."

Era o enunciado pomposo do paradigma que contava que um certo gato, depois de sentar-se numa boca quente de fogão para furtar alguma comida, decidiu nunca mais chegar perto de fogão algum.

Sir George Bernard Shaw, outro mestre a quem ele recorria freqüentemente, no desespero filosófico constante: "O homem sensato se adapta ao mundo. O homem insensato persiste em adaptar o mundo a si mesmo. Daí que todo o progresso depende do homem insensato."

Ele sentia-se felizmente insensato. Não ia se entregar, já havia feito concessões demais. Isso lhe lembrara um velho professor que repetia uma história grega, que contava que Sócrates perguntou certa vez aos seus alunos o que era o heroísmo.

- Heroísmo é dar a vida pela pátria - teria respondido Platão.

- E se você pudesse fugir da batalha e, assim, fazer com que sua pátria ganhe a guerra? Isso não seria heroísmo? - argüiria de volta o mestre.

"Heroísmo," completa Bernard Shaw, "é fazer o inimigo morrer pela pátria dele, não você pela sua."

E era isso que ele estava disposto agora a fazer.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Lamas

Depois de um dia cansativo, sentou-se na mesa de sempre no Lamas. O garçom, que o conhecia há anos, trouxe o de sempre, e, percebendo a melancolia que tomava conta de seu antigo, embora jovem, cliente, buscou fundo na memória um poema, justamente chamado Lamas, do mestre dos mestres Aldir Blanc.

Dizia assim:


Ter coragem de olhar
pela última vez
e mentir calmamente:

quem sabe?... Talvez...
como se a última vez
ficasse pra outra vez.


Sem querer (ou por querer), o garçom tinha acertado em cheio a razão da angústia.
Ainda não fora desta vez.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Espelho

Naquele dia, ele era só lembranças. Ele estava apaixonado por ela: lembranças em excesso eram mais dos inequívocos sintomas da paixão. Lembrou-lhe o momento em que se beijaram, o momento em que se perceberam, o momento em que brigaram - sentiu-se tolo, sentiu-se forte, sentiu-se feliz.

Reciprocidade era uma coisa incomum, ainda que menos no cinema do que na vida. Ele achava muito injusto, coisa de roteirista sádico, que se criassem tantos problemas antes que os protagonistas da história ficassem juntos... alguns ele criara por ingenuidade; outros, ela criara por medo.

Para ele era claro que ficariam juntos, apesar dos outros (talvez pensasse assim para não sofrer por antecipação). Em sua vida, bem como em seu próximo filme, cujas filmagens se avizinhavam, ele aprendia que Sartre era um cara que devia ser levado a sério... "O inferno são os outros". Exatamente isso.

Ele estava soterrado pelas lembranças dos momentos mais recentes: tinha a certeza de que o homem que saíra da casa dela era mais maduro do que o homem que ali houvera entrado. Beijaram-se com tanto desejo como poucas vezes ele havia visto, mesmo nos filmes mais inspirados.

Ele parou o carro na garagem, desligou o motor e ficou pensando. Saiu do carro lentamente, chamou o elevador. Entre as dúvidas e as vontades de que essa fatídica noite tivesse infinitas continuações, olhando pelo espelho do elevador, percebeu uma purpurina, brilhante e vermelha, que sua bochecha tinha caprichosamente roubado da blusa dela.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Conselhos

Ele tinha muita sorte. Logo um grande mestre do ofício tinha gostado dele e tinham se tornado amigos. Gostavam de contar histórias sobre o mesmo tema, as infinitas relações entre homens e mulheres, a observação atenta da vida, a mágica arte do encontro. E quando a vida ou o cinema traziam-lhe situações complexas, ele preferia ajoelhar-se diante da experiência de seu mestre e ouvir o que ele tinha a dizer. E ele sempre tinha algo genial a dizer.

Ele o encontrou quase por acaso num bar que ambos costumavam freqüentar. O mestre, um diretor já beirando os stenta, ouviu a história com a devida atenção. Fosse a vida ou fosse um filme, era indiferente, era indiscutivelmente a velha história do encontro entre duas pessoas que se queriam e não podiam ficar juntas. "Os problemas são do tamanho de quem os vê", ele pontuou, citando Jung, "e seria bom se soubéssemos dar atenção apenas aos grandes problemas."

Ele tinha para ele que a paixão era uma angustiazinha que dá no peito da gente e a gente pode deixá-la crescer, atravessar o conturbado período da puberdade para que se torne uma bela mulher e tornarmo-nos amante dela, ou podemos apertá-la pequenininho no peito, que dói enquanto cresce, mas pára de crescer e começa a minguar até que morre. Ele não queria que essa paixão morresse, e sentiu-se uma criança quando o mestre lhe perguntou "você já disse a ela que está apaixonado?".

Claro que ele não tinha dito. Dissera-lhe pouca coisa, ouvira dela pouca coisa também. Entendia muito pouco do lado dela, queria sinceramente poder entender mais. Queria extrair prazer da vida, queria viver belas histórias, queria que isso tudo fosse dividido com alguém especial... e se não fosse ela, não teria problema. Mas se fosse ela, ele deveria muito à vida... presentes como esses a vida dá com extrema avareza.

O mestre lhe apontou um caminho possível, essa história era um filme e de filmes eles entendiam.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Pergunta

Ele gostava dela. Ela dizia que gostava dele e ele não tinha a mais ínfima razão para descofiar disso.

Por que diabos então eles não podiam ficar juntos?

domingo, 4 de dezembro de 2005

Um Segundo

Quando ele saiu do elevador, ela já o esperava com a porta entreaberta. Passava um pouco da meia-noite. Aproximou-se dela, sem saber se a cumprimentava com um beijo no rosto ou diretamente na boca, que ele jamais tinha beijado mas muito o quisera.

De tão gostosa a dúvida, ele sentiu que poderia permanecer ali, parado naquele segundo de decisão, pelo resto de sua vida.

sábado, 3 de dezembro de 2005

De atores e personagens

[O homem que volta pela Porta na Parede jamais será o mesmo homem que saiu por ela. Será mais sábio e menos dogmático; mais feliz, contudo menos satisfeito consigo mesmo; mais humilde em reconhecer sua ignorância, mas ainda assim mais habilitado a compreender o relacionamento entre as palavras e as coisas, a raciocinar sistematicamente sobre o Mistério insondável que ele tenta, ainda que em vão, compreender. Fonte: As Portas da Percepção, Aldous Huxley]



Ainda na Faculdade de Cinema, ele ouvira dizer que, depois de interpretar o Stanley Kowalski, em "Um bonde chamado Desejo", Marlon Brando nunca mais foi o mesmo. Carregou para sempre, em seus outros personagens e em sua vida, esse forte personagem - autobiográfico? - de Tenessee Williams.

Anos depois, ele teve a certeza de que quem escreveu isso - o jornalista René Jordan, se não falhava sua boa memória - tinha toda a razão em acreditar que isso era perfeitamente possível.

Depois de anos interpretando o cansativo porém eficiente personagem de um ator-diretor de cinema, seguro e sedutor, arrogante, verborrágico, culto, ele havia cansado. Sentia saudades de quem ele de fato era.

Talvez não se lembrassem, talvez nem ele, de quem ele era, mas ele estava disposto a se recuperar, abandonar vícios contraídos em função do cansaço pelo peso de carregar, todas as horas do dia em que não estava dormindo ajudado pelos remédios tarja-preta, esse enorme ego que ele ostentava. Para ele, tudo era muito artificial agora.

Ouviu seus velhos discos do Tom, releu os seus autores favoritos, buscou nas cartas de amor do passado vestígios de quem ele era. Como num velho faroeste, que se lembrava de ter visto na infância e, ao assistir a uma reprise na madrugada inútil da televisão, vê-se que o filme não era bem da forma que ficou gravada no labirinto memória, mas ainda assim soava familiarmente inédito.

Embora não quisesse ser quem ele já fora, procurava aprender o que havia de bom nesse personagem que ele construira e descartar o que era ruim. "Inutilia Truncat", que era a mensagem escrita no visor de seu telefone celular, significa exatamente isso: cortar, eliminar o inútil. E ele havia prestado pouca atenção nisso nos últimos anos.

Ainda era cedo para saber se ele conseguiria, mas o tentar o deixou feliz de um modo estranhamente familiar.


E o espírito, finalmente, sobrenadou.

A Celebração da Perda

Ele chegou no restaurante um pouco mais cedo do que o combinado. Chovia forte. Sentou-se no bar do restaurante e o garçom, que o conhecia há tempos, trouxe-lhe o de sempre: scotch, 12 anos, sem gelo.

Ele, um jovem ator e diretor de cinema, havia sido recentemente contratado por um grande e tradicional estúdio para levar às telas uma grande história de amor, como aliás costumavam ser os seus filmes, que, embora todos feitos numa escala menor, tinham levado aos cinemas e emocionado um bom número de pessoas e amelhado uma boa safra de prêmios.

Agora, esperava a atriz, uma bela e talentosa atriz, a quem ele havia convidado para jantar na expectativa de oferecer a ela o papel principal do filme, a ser justamente seu par romântico nessa história.

Talvez fosse o filme de sua vida. Contaria uma história das proporções que ele sempre quis contar, sobre esse insondável sentimento a que chamamos amor ideal, que talvez - ele achava, ultimamente - nem existisse ao certo, e se existisse, era em algum canto bem remoto do planeta, onde houvesse duas pessoas que se amassem idealmente.

Ela estava atrasada, ele já estava no quarto copo. Talvez fosse a chuva, talvez tivesse confundido as horas, talvez mesmo um atraso programado - ainda que ligeiramente aflitivo para ele - programando uma entrada triunfal.

Ela era uma estrela de primeira grandeza. Ele galgava rapidamente a hierarquia dessa constelação. Poderia ser o grande sucesso do ano, da década talvez. E mesmo que não fosse, seria uma história linda.

A relação entre o diretor e suas estrelas era o que mais lhe dava prazer no microcosmo do ofício cinematográfico. Esse jantar, ele achava, poderia ser memorável, talvez merecesse alguns parágrafos em seu futuro e provável livro de memórias.

Absorto em seus pensamentos e nos vapores do malte, ele mal viu o tempo passar. Pelo adiantado da hora, ela não viria mais.


E o diretor foi jantar sozinho.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Angústia

[Angústia, por Kierkegaard: determinação que revela a condição espiritual do homem, caso se manifeste de maneira psicologicamente ambígua e o desperte para a possibilidade de ser livre. Fonte: Aurélio.]


O universo brilhava lá fora. Ele hoje era uma estrela, mas não o fora sempre. Um bom ator, diretor competente, caminhava numa intensa diagonal, para frente e para cima. Mas nem sempre fora assim.

Se hoje ele caminhava com naturalidade entre estrelas de todas as sortes, era por seu esforço próprio: assim ele o quisera e para isso ele trabalhara arduamente seu corpo e sua inteligência, seu charme, sua memória, sua cultura.

Na galáxia em que ele vivia, novas estrelas surgiam diuturnamente. Eis que, no brilho ligeiramente mais intenso de uma delas, ele viu seu sonho se realizar e finalmente, depois de longos anos, alguém alugava seu conjugado coração. Não que houvesse faltado pretendentes nessa longa estiagem, mas nenhuma lhe comovia a ponto de receber as chaves, como ela agora lhe comovera.

Seu coração estivera seco como um saleiro, mas agora chovia torrencialmente, e aos poucos, o que era irrigação e renovação se transformou em tempestade.
A estrela dele brilhava mais do que nunca, e alguns olhos refletiram este brilho. Eram todas estrelas, era uma constelação inteira, embora ele não estivesse preparado - e rezava para não estar nunca - para ser um sol.


Cansado de uma festa à qual ele não fora, ele sentou-se sozinho em seu bar favorito para beber. Havia de se aconselhar com os derradeiro de seus conselheiros: o whisky e o tabaco. Foram horas de aconselhamento.

Chegou em casa, tirou o paletó, olhou-se no espelho pálido do banheiro, lavou o rosto. Havia concluído dolorosamente muitas coisas nos últimos dias: a força que lhe restava, ele a usaria para não concluir mais nada. Apenas continuaria brilhando sua estrela e caminhando para frente. E para cima.

E quem quisesse admirar seu brilho, que admirasse. Quem quissesse ocupar o lugar sagrado que fora oferecido, que ocupasse. Ou que não admirassem ou que não ocupassem, ou nem uma coisa nem outra.

A angústia lhe era pior do que a solidão, com a qual, por pior que fosse, ele já estava acostumado. E tudo lhe era muito simples: a arte, mágica e divina, do encontro entre duas pessoas.


O universo continuava brilhando lá fora, à espera dele.

sábado, 26 de novembro de 2005

Decisões

Ele nunca estivera tão dividido antes.

A vida lhe acenava, pela primeira vez em alguns anos, com a possibilidade de vencer a inércia. Ele já não sabia se, apesar de desejar intensamente, ainda era capaz de apaixonar-se novamente.

A situação toda era muito confusa: ambos eram comprometidos, e muito embora ele, àquela altura, já fosse um homem livre, ela ainda não sabia.

Encontraram-se numa festa. Havia um clima tenso entre eles, sólido que qualquer pessoa atenta poderia perceber. Seus olhos procuraram-se e encontraram-se e fugiram-se tantas vezes ao longo da festa, que a segurança habitual dele faltava-lhe às vezes. Ele tentava negar inutilmente que isso não estava acontecendo, mesmo tendo tanto sonhado com isso.

No pouco que conversaram, ela cobrou-lhe decisões. Era como se ela tivesse lido nos olhos deles que ele já não estava mais tão dividido. Mas ainda assim, ele sabia que deveria escolher claramente aquilo que, de forma ou de outra, já havia escolhido.

Ele saiu da festa cheio de dúvidas. Ela tinha o dom de instigá-lo, de provocar-lhe reflexões. Ele sequer sabia se estava sofrendo.



Ele chegou em casa já sem dúvidas e estranhamente feliz.

Pedra Preciosa

Ela era uma estrela, que, por opção própria (ele achava), preferia não brilhar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Aluga-se

No coquitel do lançamento, ele era o centro das atenções. Também pudera, era o diretor e o ator principal do filme, como bem fora de seus últimos filmes.

Havia por ali, entre admiradores e invejosos, uma miríade de pequenas e grandes estrelas, pretéritas e futuras. A atenção dele, excepcionalmente, estava muito dispersa. Havia, em seu útero criativo, o vazio natural de um filme lançado e as milhares de possibilidades do que fazer agora.

Só que seu próximo projeto era pessoal. Era ocupar, da melhor forma possível, o seu conjugado coração, que ostentava, além de uma secular camada de poeira, uma enorme placa de aluga-se, ali deixada pela última estrela que o ocupara, cadente como todas.

Com a vista turvada de nebulosas, algumas estrelas, começando a brilhar, nem lhe chamaram a atenção inicialmente. Foi só acontecer numa ocasião seguinte, uma dessas infinitas mesas de bar com amigos - essas mesas onde surgem-se grandes paixões e grandes idéias, todas regadas pelos vapores do álcool - que ele finalmente reparou em uma delas.

E parecia interessante. Um ar infantil, a face enrubescida pela timidez e pelo álcool, a funda insegurança de quem traz uma cicatriz recente. E, sobretudo, uma inconfundível e inexplicável atração.


Nos últimos dias, ele havia feito uma faxina no conjugado coração. Já era hora de alguém arrancar-lhe aquele incômodo aluga-se, ainda que ele tivesse um medo irracional de que esta hora houvesse chegado. No fundo, ele sabia que não seria ela, mas sentia que este momento estava próximo. Se não fosse mesmo com ela, só esse sentimento de que algo estava a caminho, de que algo mudara, já o tornava especialmente feliz.

E, como ditava sua experiência recente, isso tudo talvez não passasse de um sonho. Mais um deles, entrecortado pelas manhãs.

sábado, 5 de novembro de 2005

O Primeiro Dia

Estavam todos ansiosos. Era um tempo pretérito, em que ainda se afirmavam coisas. Ele, o diretor, era um homem ao mesmo tempo encantador e assustador. Aos que o conheciam, aos que se davam ao trabalho de entendê-lo, ainda que fosse difícil, ele era fantástico. Os outros não lhe importavam.

Primeiro dia de uma série de sete, estressantes tanto quanto empolgantes. Havia ali sérias candidatas a estrelas, onstage e backstage. A atriz, que era linda , tivesse sido esculturada por Deus em pessoa, além de um grande desfile de produtoras, assistentes, maquiadoras, curiosas, figurantes, publicitárias. O que não faltavam eram belas mulheres, e porque não dizê-lo, belos homens, candidatas a figurarem numa constelação cuja vastidão impressionava menos do que o brilho que dela emanava, de fazer inveja a mil luas cheias.

Algo no ar indicava que ele surtaria. Ele era, de certa forma, o centro das atenções. Afinal, era o ator, o diretor e também o personagem do filme. Para ele, o surto era não só esperado como inelutável, e isso o agradava. A arte, para ele, era a loucura sob controle. E havia um certo instinto que o controlava.

Dentro de um set, um diretor adquire um ar de respeitabilidade, se torna uma criatura estranhamente sedutora. E ele, claro, sabia usar isso a seu favor. Já havia esgotado incontáveis ampulhetas desde que tivera uma estrela a quem dedicar seus versos infantis. Embora o conjugado coração não recebesse visitas, que nem eram esperadas, ele o mantinha arrumado. Vai que a vida, essa rameira, lhe pregasse uma surpresa, sob a forma de um semblante feminino?
Ele devia estar preparado.

E algo, pairando sobre o set, afirmava a quem pudesse, ou quisesse, sentir que ele estava.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Se eles soubessem...

Partindo de um imperdoável clichê, que vem a ser melhor do que chegar, ao final das contas a um deles, diga-se somente que loucuras feitas por amor são válidas. E pouco importa que seja um amor vindouro. Ou apenas a promessa de um.

Ela poderia chegar a qualquer momento, ele fumava ansioso um cigarro atrás do outro, disfarçando o cheiro com incenso. O apartamento estava estranhamente arrumado. Ele era outro, ela, seguindo o curso inelutável dos anos, deveria também ser outra. Teriam a mesma química de outros anos?, martelava continuamente sua cabeça. Ele esperava o interfone tocar, trazendo a chance de recomeçar uma história da qual o destino é o único vilão, que caprichosamente não permitiu o seguimento natural. A espera lhe era torturante.

Anos antes, bem antes de se tornar quem era hoje, ele chegou mais cedo ao aeroporto, o destino ainda incerto. Hesitava entre a burocrática visita aos pais ou atender ao chamado dela, fazendo escala em sua casa antes de cumprir a prometida reunião de toda a família.

Haviam se conhecido quando ele namorava uma das melhores amigas dela. Ele a achava apenas comuníssima, embora admirasse sua beleza, oculta sob intensa formação católico-interiorana. Ela o via arrogante, aliás, como muitos o vêem até hoje. Eram um casal improvável, ainda mais porque havia em jogo uma amizade e um namoro construído solidamente sobre o amor.

Tudo acabou começando numa garrafa de whisky. Aliás, quase todas as grandes histórias começam numa garrafa de whisky. Eram os três àquela hora, debruçados sobre os vapores. Ao que a primeira caiu, sobraram, pela primeira vez frente a frente, sozinhos, os dois: ela com medo de não ter assunto, ele com medo do tédio.

O segundo passo, separado por meses, foi um singelo e-mail de feliz aniversário, que ela inesperadamente recebeu dele. Dali, o namoro com a amiga dela já fosse quiça passado, mas nunca havia lhe ocorrido que uma história assim pudesse acontecer. Da comunicação eletrônica, veio a súbita noção de que era como se já se conhecessem de tempos imemoriais, da vontade de conhecer melhor um ao outro. E para o convite para um fim-de-semana juntos entre o natal e o ano-novo, bastou um telefonema do saguão do aeroporto.

Em pouco mais de duas horas ele sentava-se no sofá da casa dela. Ali, sabiam o que seria inevitável. Longas horas de loucuras, regadas aos mais vulgares álcool, poesia e olhar. Escorreu a tarde inteira como também escorreria a noite, e as únicas testemunhas primeiro beijo deles haviam sido o nascente e algum carrilhão que soava, num canto próximo, algo que lhes pareciam, embriagados, o Bolero de Ravel.

Ela, a quem a simples amizade dele bastaria, fazia com que ele se sentisse uma criança; ele, tão acostumado a ser forte e saber tudo, adorava isto. Ela, apesar de não ter nada de Capitu, era muito mais mulher do que ele era homem. Ele teve vontade de jogar tudo para o alto, passar o Ano-Novo com ela, mas acabou seguindo seu rumo à casa dos pais.

Desde então, não se viram mais. Ela casou e descasou, ele lançou seus filmes e teve seu casamento encerrado nas páginas das revistas, ela fez planos, ele teria tentado o suicídio se tivesse coragem. Viveram, enfim. E o reencontro que adiaram paulatinamente ao longo dos anos, agora era inevitável.

Ele realizou que haviam esperado dez anos. E agora, matavam-lhe os dez minutos que separavam o aeroporto de sua casa. Ela estava chegando.




O interfone tocou. Era ela.

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Amanhã

Ele chegou em casa, ainda meio zonzo do whisky que tomava com o padrinho desde as cinco da tarde. Não notou nada de estranho quando jogou o paletó sobre o sofá vermelho e acendeu o abajur.

Já tirando a gravata - italiana, claro - dirigiu-se ao quarto. Uma nota de perfume perdida no ar chamou sua atenção... ele conhecia aquele perfume, mas a última lembrança dele havia ficado perdida na memória, distante... apenas uma vez, numa banca de jornal ele o sentira de longe, mas seu coração impôs o esquecimento.

Agora, ela estava ali. O mesmo perfume. Não podia acreditar que ela tinha voltado. Ele havia querido muito que ela voltasse, mas agora não sabia. Quando ela o deixou, ele era apenas um jovem e promissor diretor de cinema, recém-saído das barras dos professores da faculdade.

Agora, era um respeitado - embora ainda jovem, no início da casa dos trinta - diretor e ator, com passagens pelo cinema europeu, um convite de Hollywood e um punhado de prêmios importantes. Ele não sabia se devia aceitá-la de volta, se cabia aceitá-la de volta. Se é que era isso mesmo que ela queria, se é que era para isso que ela estava ali. De qualquer forma, ela estava deitada em sua cama.

Desde que ela o deixara, ele chorou muito. Sofrera, sem saber o que havia a vida feito dela. Levou tempo até se reerguer, e, muito embora não tivesse tido, entre as tantas mulheres que teve desde então, outro amor, conseguiu achar um ponto de equilíbrio, com o qual vinha vivendo muito bem nos últimos meses. Certo que ela lhe facilitara isso, sumindo no mundo sem deixar rasto. Durante muito tempo, ele sentiu como se os cabelos dela ainda colassem em seu rosto exausto e suado.

Ele sabia que ninguém percorria os caminhos dela tão bem como ele. Ele sabia, sabe-se lá como, fazer fluir o prazer secreto do ventre dela, como se a natureza lhe garantisse tal conhecimento em prol de objetivos maiores e inomináveis.

As lembranças lhe brotavam aos borbotões. Tanto aqueles corpos já haviam se entrelaçado sobre aquela cama, onde ela agora dormia inocentemente. Cinco ou seis anos atrás, eles arrasavam aquele quarto e aquelas almas provando, a quem pudesse ter ciência, que o amor é tempestade.

Afogado nas lembranças, ele dormiu no sofá da sala.

domingo, 30 de outubro de 2005

Grand Monde, Veuve Cliquot e Je ne sais quois...

Na última vez que ele a vira, ela era nítida e quente. Agora, jazia estampada numa frase suja de jornal, entre uma greve de ferroviários e um anúncio das Casas da Banha.

Ele, aprendiz de malandro, tinha herdado da família, outrora muito rica, bons modos e um punhado de dívidas. Seu je ne sais quois lhe abria as portas do grand monde, por onde ele sobrevivia graças ao seu charme e aos seus belos olhos verdes, apesar de seu natural talento para a confusão.

Até que caiu de amores por ela. Tinham se conhecido em Angra, numa festa cheia de artistas de cinema e sobrenomes ilustres, a nata do jet set internacional, oferecida por um outrora poderoso senador da República. Ela acompanhava um empresário alemão, encantado pelo tom tropical das peles de nossas meninas.

Uma louríssima atriz, às beiras do coma alcóolico, já fora de seus saltos-altos, brigava aos altos brados com seu celebrado marido, o diretor que lhe tinha dado o estrelato de presente de casamento, o ator com quem fazia par romântico nas telas mundo afora. Acusava-o de pouco interesse sexual, para quem quisesse ouvir. E todos ouviam. Ele admirou a impavidez com que o diretor contornou a situação. Essa classe, só no cinema, pensou, talvez tenha comentado em voz baixa.

Todos, inclusive ele, já tinham bebido champagne demais. Nem todo dia a Viúva Cliquot lhe fazia companhia a noite toda, ele tinha que aproveitar. Ela, por outro lado, tinha bebido demais, não estava lá para se divertir. Aliás, se divertir é o que ela menos tinha feito desde que tinha aceitado acompanhar esse gordo alemão radicado na Suíça, em troca de um punhado de Euros...

Quando ela decidiu ir embora, ele já flanava pelas areias da praia. Estavam numa ilha, seria tudo muito real para aquela noite mágica se eles não se encontrassem. Acabaram se encontrando na praia mesmo, donde da paixão instantânea, solúvel em doses generosas de champagne e solidão, passaram rapidamente à conversa lacônica e sem sentido que pontua inícios de grandes romances, e depois à fúria sexual que toma os corpos dos homens desprevenidos, já no convés de um pequeno que tomaram emprestado para este nobre fim.

E como convém nesses casos, ele foi acordado por vozes distantes, pela luz do sol. Tudo junto. Dois seguranças lhes haviam descoberto lá... mas ela não estava mais lá... ele tentou explicar, mas não pareciam os dois brutamontes muito dispostos ao bom colóquio... acabou que, depois dos (para ele) imerecidos tabefes, sobraram-lhe uma dor de cabeça, um par de hematomas e ligeiras escoriações... faltaram-lhe, no entanto, lembranças acuradas da noite anterior, bem como os poucos reais de sua carteira, que evaporaram junto com aquela que tinha, ele desde já sabia, jogado sua vida de cabeça para o ar.

E que agora ele via, foto no jornal.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Entre a Serpente e a Estrela

Há um brilho de faca
onde o amor vier
e ninguém tem o mapa
da alma da mulher
ninguém sai com o coração sem sangrar
ao tentar revê-la
um ser maravilhoso
entre a serpente e a estrela
um grande amor do passado se transforma em aversão
e os dois lado a lado
corroem o coração
não existe saudade mais cortante
que a de um grande amor ausente
dura feito um diamante
corta a ilusão da gente
toco a vida pra frente
fingindo não sofrer
mas no peito dormente
espero um bem querer
e sei que não será surpresa
se o futuro me trouxer
o passado de volta
no semblante de mulher

(Aldir Blanc, mestre dos mestres)

domingo, 23 de outubro de 2005

As Estrelas

Ela era a estrela da vida dele. Uma bela atriz, arrebatava platéias. Tinha sido, desde o começo, a inspiração que lhe deu bons filmes e noites igualmente boas, e ele esperava que fosse apenas o começo, que tudo o mais haveria de vir, esquecendo de propósito as tantas vezes que começou projetos de vida. Houvera planos frustrados bastantes para dez encarnações em sua manga.

Certo, ela não era a primeira estrela. Houvera outras, outro tempo. Atrizes sempre foram seu ponto fraco. Louras, então, diabos! Mas ele sabia quando punha os olhos sobre uma estrela. Esta ele havia conhecido num filme cuja protagonista havia sido escrita para ela, e ficaram juntos antes mesmo da estréia. Ele atribuía muito disso ao charme do ator-diretor, razão-emoção, loucura sob controle. O caos numa gaiola, como ele dizia.

- Nunca conheci um homem como você. Eu te amo para sempre.
- Depois do filme, você nem vai querer me ver.
- Claro que vou. Você me conquistou.
- Você sabe que não.

Ele sabia que sim.

Depois deste filme, com o tesão ainda turvando-lhe as vistas, veio outro filme. Viriam outros, ele sabia, afinal era essa a sua profissão, e viriam outras atrizes talvez. O céu era de brigadeiro, desviava-se dos cúmulos. O segundo filme trouxe asperezas, ciúme, pequenezas, tornou-se nublado o céu.

Ele sabia que não tiveram tempo de amar um ao outro como mereciam, como quiseram, como planejaram. Tinha sido pouco tempo demais. Ela fora, na vida dele, uma estrela de uma só temporada.

Afinal ele era jovem, teria em sua vida outras tantas estrelas, tantas ele quisesse. Danem-se. A estrela que ele queria, cintilava cada vez com menos intensidade, deixava seu seu cada vez mais umbroso.

Não sabia se ele se desinteressava desse tipo vazio, como se buscasse um grande e verdadeiro amor, cujo mito ele ajudava o cinema a propagar, ou se apenas eram as estrelas, que caíam de seu céu rápido demais. E ele nem podia fazer um pedido.

sábado, 22 de outubro de 2005

Iracema

Não tem o cabelo negro como a asa da graúna, a minha Iracema.
A minha Iracema não voou para a América,
Não é virgem nem tem lábios de mel.

A minha Iracema faz ponto na Praça Mauá.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Sartre, basicamente

Venta. Sentados numa mureta sobre algum mar:

- Eu quero ser tua para sempre.
- Quer ser minha ou quer ser livre?
- Eu quero ser tua. Abro mão da minha liberdade.
- Você não pode.
- Eu faço o que eu quiser. Eu não quero ser livre, quero ser tua.
- Eu só te quero livre.

Diante do paradoxo, ela chora. Que merda de liberdade era essa que lhe prometera ele, se nem ao menos ela podia deixar, por opção própria, de ser livre.

A liberdade dela o encantava. Desde os longos cabelos pretos que esvoaçavam à prea-mar, as saias ripongas lhe ocultando as pernas com que tanto ele sonhara. Ela era uma criança, não entendia bem o que se passava na cabeça dela. Era uma criança avançada para a idade dela, confessava ele. Isso, no entanto, não deixava para trás a infância estampada no rosto dela. Era gostosa, e daí?

Deformava-lhe o sorriso, o choro. Nem se lembrava por que ela estava mesmo chorando. Ela queria ser dele e estava acostumada a ter sempre o que queria. Não fora acostumada à rejeição. Sua cabeça dava um nó ao pensar que o que havia entre eles era admiração intensa, tesão e um belo paradoxo. Ele a queria livre. Ela, dele, perdia essa condição.

- Pára de chorar.
- Não quero, porra. Você brinca comigo e depois vem com esse papo.
- Pára de chorar.

Ele se levanta e vai embora. Ela fica pensando. Recebendo de maneira ácida demais para seus poucos anos a dura lição de que não controlamos a vida. Ele vai embora, segurando as lágrimas. Apesar da vocação de professor, não era esse o tipo de lição que ele gostava de ensinar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Nem Cais, Nem Barco

É que tudo começa do começo. E esse começo foi um nome e daí a chance de homenagear, justamente, o mestre dos mestres.


O meu amor não é o cais
Não é o barco
É o arco da espuma
Que, desfeito, eu sou...

É tudo e coisa nenhuma
Entre a proa e a bruma, o amor
É a lembrança que enfuna
Velas na escuna que naufragou...

Não é no livro antigo o olor
De rosa que eu recebi
Não é a ode, a loa
Em Fernando Pessoa
Mas é a nostalgia
Do que eu não li...

Não é o camafeu
Exposto na vitrine, em loja de penhor
Mas é o que doeu
No peito feito um crime
Ao homem que o trocou...

É o olhar de um instante
Fixando o amante
Em plena traição
Que há em noivas degoladas no caramanchão...

É o vulto de mulher
Há muito tempo morta
Em frente à penteadeira...
É o vazio que a
Ausência dela ocupa ao ver sua cadeira...

A chuva dessa tarde trouxe Tito Madi
E apenas eu ouvia...
Ah, o amor é estar no inferno ao som da Ave Maria!

(Aldir Blanc)