sábado, 18 de junho de 2016

Modelo de Estrutura Narrativa: o John Truby Beat Sheet

Beat sheet é uma simplificação das estruturas narrativas consagradas em uma sequência causal de movimentos dramáticos. Em outras palavras, é lista do que acontece na narrativa, elencada por movimentos estruturais que seriam comuns à grande maioria do que Jacques Aumont chama de Narrativa Representativa Industrial. Um beat sheet dos mais conhecidos é o do roteirista Blake Snyder, sobre o qual eu falei nesse artigo.

Beat sheets são uma ferramenta popular entre roteiristas principalmente no sentido de proporcionarem um resultado (roteiro) próximo do padrão hegemônico da Narrativa Representativa Industrial, sem levantar qualquer tipo questionamento sobre sua forma ou sobre os aspectos contingentes - História e Ideologia - que de certa maneira determinam o modo de se narrar.

Há um contrassenso em partir do que há de comum entre grande parte das histórias, quando o que se busca é a singularidade da própria narrativa - ou seja, contar uma história que não tenha sido contada antes, ou recontá-la de maneira original.

Feita essa ressalva, recentemente conheci o trabalho como professor do roteirista americano John Truby, que desenhou em seu livro "Anatomy of a Story" um modelo de 22 etapas, que corresponde de certa forma aos outros Beat Sheets - como o Blake Snyder e o Memorando de Vogler - mas descrito sob uma lógica diferente, mais flexível, que afirma por exemplo não ser necessário todos os movimentos estarem presentes em todos os filmes.

Eis um resumo do John Truby Beat Sheet:

Auto-revelação, necessidade e desejo - esta é uma etapa razoavelmente simples mas muito importante de se estabelecer corretamente. Falhar em assegurar esses três elementos frequentemente resultará em não saber em que direção sua história está indo.

Fantasma e mundo narrativo - essa etapa no roteiro corresponde a determinar qual é o "fantasma" que assombra o protagonista, e qual o seu "mundo narrativo. O fantasma é uma questão do passado do protagonista que ainda o atormenta, talvez provocando um conflito interno. O mundo narrativo consiste em mostrar aos espectadores como seria um dia normal na vida do protagonista.

Fraqueza e necessidade - a fraqueza (o problema) é a dificuldade que o personagem possui no começo da história. A necessidade é do que ele precisa para recuperar seu equilíbrio. Frequentemente (ainda) está relacionado ao interesse romântico.

Incidente Incitante - é geralmente bastante perceptível no filme. É a ação que rompe com o mundo narrativo do protagonista. 

Desejo - é o que move a história, que se geralmente se foca nos desejos do protagonista.

Aliado ou aliados - a utilização de um aliado é uma maneira que muitos roteiristas encontram para definir seus protagonistas. Aliados podem ter praticamente qualquer natureza, sejam amigos, parceiros ou simplesmente alguém que oferece conselhos ao protagonista.

Oponente e/ou mistério - o oponente é consideravelmente objetivo. O oponente é a pessoa com a habilidade de atacar o protagonista utilizando para isso a fraqueza revelada anteriormente. O mistério pode ser também um oponente invisível, como nas histórias de detetive, em que se precisa de um mistério que compense a falta de um inimigo.

Oponente falso-aliado - é um personagem na história que surge para ser um aliado mas acaba se revelando como um oponente.

Primeira revelação e decisão - a mudança do desejo e da motivação. Essa etapa é bastante conhecida como o primeiro ponto de virada no filme, e é quando o protagonista descobre informação nova e toma uma decisão que muda repentinamente os rumos da história.

Plano - é a maneira que o protagonista encontra para realizar seu desejo. O plano não tem que sempre funcionar perfeitamente - se fosse assim, o resultado seria um filme chato. Uma falha imprevista ou uma ação surpreendente do oponente podem alterar o plano. Isso acontece com a intenção de chocar ou surpreender os espectadores.

Plano do Oponente e Estratégia de Contra-ataque - agora é a vez do oponente aparecer com um plano para contrapor-se ao protagonista e impedi-lo de realizar seu desejo.

Motivação - é a linha central da história, os passos reais que o protagonista dá seguindo o plano. É muito fácil repetir-se na motivação, de modo que é importante prestar atenção para não o fazer.

Fogo amigo - também facilmente perceptível em muitos filmes. É a parte quando o protagonista se desvia de seu caminho, de sua motivação original, ou tenta tomar um atalho em direção ao seu desejo. Também é frequentemente a etapa em que o protagonista recebe um tapa na cara (figurativamente é claro).

Derrota aparente - quando o protagonista está prestes a desistir. Toda a esperança se perdeu e não há saída para o tormento em que se encontram. É o ponto inferior da história, quando o protagonista tem certeza de que o oponente resultará vitorioso.

Segunda revelação e decisão: motivação obsessiva e desejo transformado - este é o momento em que o protagonista percebe onde errou e decide tentar novamente. Ele possui interesse renovado em seu desejo, porque sua perspectiva a respeito se transformou.

Revelação aos espectadores - é quando os espectadores veem algo que protagonista não sabe, e descobrem uma parte vital da informação. Tipicamente, os espectadores tomam ciência de algo antes que o protagonista o faça.

Terceira Revelação e Decisão - O protagonista aprende tudo o que pode, de modo a tornar-se um adversário digno a seu oponente, e ser capaz de derrotá-lo.

Portão, manopla, visita à morte - Tipicamente é o último sacrifício do protagonista, que pode ter que enfrentar uma última provação antes da batalha.

Batalha - é o confronto final entre o protagonista e seu oponente. Essa etapa está presente na grande maioria dos filmes realizados, e é uma oportunidade para o roteirista diferenciar claramente por que o protagonista e o oponente estão lutando - para mostrar quem se sairá melhor.

Auto-revelação - o protagonista finalmente compreende o que vem fazendo de errado e como corrigir para obter sucesso. Trata-se de algo que ele não havia compreendido até o momento.

Decisão moral - O protagonista começa a agir de acordo com o que acabou de compreender. Ele precisa tomar a decisão correta - que pode ser morrer uma morte honrada.

Novo equilíbrio - Finalmente, tudo retorna ao normal, similar ao "mundo narrativo" mostrado no início.

FIM.



segunda-feira, 7 de março de 2016

Antonio Candido sobre o Personagem

Impossível cursas Letras no Brasil e não encontrar o professor Antonio Candido em diversas áreas, notadamente Literatura - campo em que seu Formação da Literatura Brasileira é a obra seminal. Entretanto, para os estudos de Roteiro ele lamentavelmente permanece um estranho, raramente estudado ou citado. No entanto, poucos intelectuais no Brasil possuem a magnitude de Antonio Candido - não só por sua produção acadêmica mas também por sua militância, da oposição a Vargas à fundação do PT.

O melhor texto que já li sobre personagem é o seu capítulo do livro O Personagem de Ficção, da Coleção Debates. Chama-se O personagem no romance. Ao contrário de outros autores, Candido não oferece classificação dos personagens, ou fórmulas que possam ser aplicadas. Tampouco busca exemplos estatísticos entre os grandes sucessos da Literatura, como fazem os manuais de roteiro. Por outro lado, Candido analisa a evolução do personagem no romance - de onde o personagem na narrativa representativa industrial (NRI), seja em que veículo for, é tributário - pensando em sua construção de modo indissociável à narrativa, e não como uma estrutura que se pode isolar e conhecer em minúcias.

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Chama-me a atenção quando Candido evoca Gide: "Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade dos meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens."

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Tive desde pequeno certa admiração e curiosidade por sua figura, com quem partilho uma peculiaridade biográfica. Ambos cariocas, passamos parte da infância na aprazível Poços de Caldas. Num ponto, entretanto, discordamos radicalmente: ele é um fã entusiasta de Memórias de um Sargento de Milícias.

Antonio Candido (1918).